No princípio da década de 60 apareceu em Paris um livro do Padre Henri Fesquet com este título: Catolicismo, religião de amanhã?
Era um livro apaixonante, cuja versão portuguesa foi publicada pela Livraria Morais Editora, em 1964, e que lido hoje, mais de quinze anos depois, nos faz reflectir. Fesquet dava ao seu ensaio como título uma pergunta, que o editor português decidiu transformar numa afirmativa. Mas os anos que nos separam mostram que a dúvida do autor tinha a sua razão de ser. De facto, tudo leva a crer que no futuro que já estamos a viver não será o Catolicismo - pelo menos o Catolicismo de 1960 - a religião do homem.
O Arcebispo Lefebvre afirma com dureza que, depois do Vaticano II, o Catolicismo está a ser fortemente influenciado pelo Protestantismo, acreditando ele que, se os católicos fiéis à tradição não se opuserem, a Igreja de Roma acabará por perder as suas características específicas e o Protestantismo será a religião do futuro.
É certo que o Arcebispo em questão é um exagerado, mas há sinais dignos de reflexão. Pois não há quem, no seio da Igreja Católica Romana, ponha em dúvida a infalibilidade do Papa? Não há quem defenda uma maior discrição no culto à Virgem Maria? Não há quem ponha reticências ao ensino sobre o Purgatório? Não há quem afirme a necessidade de pôr fim à obrigação do celibato dos Padres? E, sobretudo, não há já uma constante exortação dentro daquela Igreja para que os fiéis leiam a Sagrada Escritura e por ela pautem as suas vidas?
Tais aspectos pertenciam ao Protestantismo. Como protestante era a afirmação de que o serviço divino (missa, culto) deveria ser celebrado em vernáculo, e protestante era a exigência de não ornamentar os templos com imagens. Se hoje vemos o Catolicismo adoptar esses princípios ficamos certos de que os não copiou do Protestantismo; não se trata de uma influência, mas sem dúvida de um regresso à simplicidade evangélica. Mas podemos perguntar-nos, como Fesquet, se o Catolicismo vai ser mesmo a religião de amanhã?
Um Protestantismo triunfalista daria como resposta um não decidido, mas aquele que conhece as Escrituras e já leu um pouco da História do Cristianismo sabe que não é o Protestantismo que está a sair vitorioso neste processo - mas é o Cristianismo que está a impor-se. Através dos séculos sempre houve vozes que defenderam:
a) Que o mais importante não é a observância servil dos rituais religiosos, mas uma relação pessoal do crente com Cristo; relação que pressupõe um voltar-se também para os outros homens, seus irmãos;
b) Que a Bíblia é a única regra de fé e prática para os cristãos;
c) Que todo o cristão desempenha a função de sacerdote do Altíssimo.
Se tais afirmações foram, com a Contra - Reforma, consideradas protestantes, foi indubitavelmente um erro, porque não são apenas protestantes: são da essência da Fé Cristã. Ninguém se pode considerar verdadeiramente cristão se não crê nesses três princípios fundamentais - e se neles crê, e vive de acordo com o que crê, é cristão, seja qual for a confissão a que pertence.
No século XVI, quando Martinho Lutero, seguido por Zuinglio, por Calvino e por muitos e muitos outros, lutou pela restauração (reforma) da Igreja Cristã, não requereu nada de particularmente original, mas requereu apenas o que um verdadeiro profeta de Deus devia exigir naqueles dias em que o estado da Igreja era claramente oposto ao do Cristianismo evangélico. Roma, a este anseio de reforma, respondeu com altivez, com intimação - e com a excomunhão de Lutero, desse Lutero, frade, Doutor em Teologia que não era perfeito (haverá algum homem perfeito?), não estava isento de erros, mas era, no essencial, um crente sincero e um profundo conhecedor da Palavra de Deus (como o reconhecem hoje autores católicos sérios, que rejeitam as lendas caluniosas inventadas contra esse grande cristão).
A prova de que Lutero e todos os outros cristãos que o acompanharam não estavam longe da verdade está no facto de que, com o correr dos séculos muita da sua contestação encontrou eco na própria Igreja Católica Romana. Aqueles que hoje pertencem às Igrejas da Reforma (presbiterianos, metodistas e outros) vêem com alegria a Igreja de Roma reconhecer explícita ou implicitamente a justeza das suas posições. Mas não se vangloriam nisso: porque o desejo dos cristãos não pode ser a sua vitória, mas a vitória de Cristo, que é a unidade da Igreja. E essa está sem dúvida a ser construída com esses avanços. A unidade não se encontra com arranjos de gabinete, com compromissos - mas com o avançar na senda aberta pelo Senhor.
O Protestantismo não pretende ser a religião de amanhã; o que ele quer ser amanhã também é um movimento vital que conduza as pessoas a uma autêntica fé em Jesus Cristo e a uma real solidariedade humana, principalmente solidariedade com os menos favorecidos da terra.
No livro de Fesquet que referimos no início, cita-se esta frase de Montesquieu: «Os protestantes desaparecerão, mas quando tiverem desaparecido o Catolicismo ter-se-á tornado protestante». Os protestantes (ou cristãos evangélicos, como também nos chamam) aceitariam e bom grado a «profecia» do filósofo francês que, em rigor não significaria o fim do Protestantismo, mas o fim das causas que lhe deram origem.
Todavia, é preciso dizer que o Protestantismo não vive contra o Catolicismo ou contra qualquer outra forma de adorar a Deus. Não temos como objectivo destruir outras confissões cristãs, mas procuramos tão-somente converter os homens a Cristo.
É verdade que houve um tempo em que a nossa pregação foi fortemente anti - católica. Como podia deixar de o ser? Mesmo em Portugal, onde as primeiras congregações surgiram apenas no século passado, não seria possível ser movimentos libertador, como é o Protestantismo, e não ser anti - católico. Porque nesse século ser católico era, salvo caríssimas e honrosas excepções, era ser obscurantista, reaccionário, clerical. O Protestantismo, combatendo esse Catolicismo de Trento, do Vaticano I, da encíclica Syllabus, procurou ser fiel a Cristo que está ao lado dos homens construindo um mundo melhor, procurou ser fiel à sua vocação progressista, e serviu a Pátria, embora modestamente, pois modesto era o número dos protestantes portugueses.
Mas hoje - e sem termos ilusões quanto ao tipo de Catolicismo que alguns ainda defendem - sabemos que a atitude anti - católica não se justifica mais. Seria demagogia, seria entrar na estrada larga de que fala o Evangelho, seria sectarismo inaceitável combater raivosamente o Catolicismo quando há tantas coisas positivas que os cristãos podem e devem fazer. O Protestantismo sabe que a Igreja Católica Romana está, graças a Deus, a passar por uma intensa renovação e tem, de resto, o Protestantismo, como fim da sua pregação e acção não a conversão dos crentes de outras Igrejas, mas voltar-se para os que experimentam o sentimento do absurdo perante a vida e dizer-lhes, como Pedro, o Apóstolo: «Arrependei-vos e convertei-vos para que sejam apagados os vossos pecados e venham assim os tempos de refrigério, pela presença do Senhor». (Actos dos Apóstolos 3:19)
Há ainda muitos protestantes no nosso país, algum vítimas de condicionalismos sociais, culturais e psicológicos que temos de respeitar, que supõem ser seu dever atacar dura e radicalmente a Igreja Católica Romana pelas expressões de religião popular que ainda mantém e por dogmas sem fundamento bíblico. Mas nós, protestantes também, mas pertencentes à família reformada (presbiterianos e metodistas, sobretudo) sentimos que há uma multidão tão grande fora das Igrejas, mesmo que tenha recebido o baptismo e venha a ser casado ou enterrado pela Igreja, que consideramos imperioso voltarmo-nos para esses, voltarmo-nos para os que sofrem, cooperar com todos os que procuram minorar o mal da nossa sociedade e anunciar-lhes a mensagem salvadora de Cristo.
És tu, leitor, um dos tantos portugueses que não entra numa igreja, não lê as Sagradas Escrituras, não tem hábitos devocionais? Pois a ti transmitimos o convite de JESUS CRISTO: «Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas». (Evangelho de S. Mateus 11, 28-29)
O Guia que é proposto não é o Protestantismo, não é a nossa Igreja: é o próprio JESUS CRISTO. Certo, nós acreditamos na Igreja, como o dizemos no Credo que, Domingo após Domingo, é recitado nos nossos cultos (creio na Igreja universal), isto é acreditarmos que um cristão deve estar associado à Igreja, a uma congregação, parte da Igreja Universal; mas o Guia, centro da nossa fé, é o SENHOR JESUS CRISTO.
É Ele quem perdoa, reconcilia o homem com Deus, consigo próprio e com o seu próximo. É Ele quem nos torna participantes da Vida Abundante (João 10, 10) - é Ele o Caminho, a Verdade e a Vida: ninguém chega a Deus se não por Cristo (João 14, 6).Não estamos especialmente interessados em glorificar a nossa Igreja, mas esforçamo-nos por apontar para Aquele que é o centro da nossa Fê e anunciá-lo como único Caminho que o homem deve seguir para se tornar naquilo para que Deus o criou, isto é tornar-se «filho de Deus», ser- livre e perdoado.
A Igreja Presbiteriana, se se recusa a pregar contra outras formas cristãs de adorar ao único Deus, menos ainda aceita alinhar ao lado daqueles que se usam matreiramente da religião para atingirem objectivos claramente político-partidários. Se antes do 25 de Abril de 1974 corremos alguns riscos por não pactuarmos com o regime então vigente, e se alguns dos nossos Pastores e Leigos foram apontados como elementos subversivos, é porque a nossa Igreja, anunciando Cristo, que é Liberdade (João 8, 32), não pode senão ser pela liberdade, pela justiça, pelo entendimento entre os povos. E por isso mesmo sentimos que o anúncio do Evangelho, que é chamada dos homens à construção de um mundo novo, deve se feito, firme e infatigavelmente, no nosso país. Os factos provam que não basta mudar um regime: e preciso mudar os homens.
Leitor, hoje Cristo, através deste ramo da Sua Igreja, chama-te a uma fé viva, autêntica, que dá sentido à existência. Como Igreja fiel ao ensino dos Apóstolos, proclamamos-te também este ensino dos Apóstolos: «Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua família». (Actos dos Apóstolos 16, 32)