A Europa que desejamos

No momento em que se realizam as eleições para o Parlamento Europeu, o 55.º Sínodo da Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal (IEPP), reunido na cidade de Lisboa, entende ser seu dever, sem interferir ou tomar qualquer posição na luta democrática das famílias partidárias, exprimir os seus pontos de vista aos deputados europeus eleitos e aos responsáveis do nosso Governo.

1.Começamos por lastimar o momento actual que vivemos na Europa, criado em torno da situação do Kosovo. Não foram suficientes os exemplos desastrosos dos dois conflitos mundiais, destruindo grande parte da Europa e acabando por dividi-la politicamente e criar um clima de guerra fria, que só há pouco tempo terminou, eis que nos envolvemos num novo conflito que, mais uma vez, pretende ser solucionado pela força das armas.

Desejamos uma Europa de paz e não de guerra. Sabemos que os meios bélicos não constituem solução para os conflitos existentes entre as nações ou no seio das mesmas. Apelamos ao diálogo diplomático e à criatividade de soluções não violentas, ou pelo menos, não belicistas.

2. Preocupa-nos a exagerada atenção e prioridade que se tem dado ao valor da economia e da política financeira na construção europeia fazendo com que a integração económica avance muito mais rapidamente do que a integração social. Mais preocupados ficamos quando isto é feito em detrimento das dimensões política, social e cultural. É o número elevado de desempregados, a pobreza crescente que inclui os muitos milhares que dormem nas ruas das grandes e luxuosas capitais europeias, são os jovens que encontram na droga a alternativa à ocupação profissional que não existe, são os padrões e as qualidades de vida muito diferenciados que provocam o mal estar de muitos e estão na base de movimentos de protesto motivados pelas injustiças de que são vítimas.

Não nos interessa somente a criação de uma Europa suficientemente forte economicamente para fazer frente aos Estados Unidos da América e ao Japão. Apelamos aos nossos deputados no Parlamento Europeu e ao nosso Governo para se preocuparem mais com os cidadãos do que com os números. Em última análise, são aqueles e não estes, a razão de ser e a prioridade das instituições democráticas europeias.

3. A União Europeia (UE) tem ocupado o lugar central no nosso continente, ao ponto de se chegar a identificá-la com a própria Europa. Em nosso entender, e por muito forte que a UE seja, ela não pode ser a nível europeu, o que os USA desejam ser a nível mundial. A dignidade dos países mais pequenos e mais pobres tem de ser respeitada e reconhecida no consenso das nações e das instituições europeias.

Pensamos que a Europa é muito mais do que a União Europeia e as suas portas devem estar abertas a outros países, particularmente os do leste europeu, ainda que todos tenhamos um preço a pagar por esses novos membros. Como portugueses não devemos esquecer o que outros pagaram, e ainda estão pagando, para que Portugal integre a UE. Esperamos que os nossos deputados europeus e os responsáveis do Governo sejam portadores e defensores desta mensagem de solidariedade e defendam a entrada de novos países como membros de pleno direito.

4. Nem a União Europeia constitui o centro do mundo, nem pode ceder à tentação de viver "orgulhosamente só". A Europa é um pequeno continente e a UE uma parte do mesmo. Apesar de pequeno é um continente cuja história o liga a muitos outros que, num passado mais ou menos distante, se viram colonizados, explorados e ultrajados pelos Europeus. Muitos, por não encontrarem as condições de vida nos seus países, outros para fugirem aos dramas da guerra e da fome, outros ainda por não poderem contemporizar com regimes ditatoriais e corruptos, vêm bater às nossas portas.

Desejamos que esta Europa rica em que nos inserimos saiba hoje acolher o refugiado político e o emigrante económico no seu seio. Que saiba criar as condições para uma sã convivência pluralista e que a veja como uma força enriquecedora e criativa e não como uma ameaça. Apelamos aos deputados europeus e ao Governo no sentido de lutarem contra todas as tentativas racistas e xenofóbicas, contra os nacionalismos exacerbados e contra a tentação de transformar esta nova Europa num espaço só para europeus, criando assim um novo modelo de "apartheid".

5. A Europa no seu todo, e a UE em particular, tem um longo passado onde a convivência dos diversos povos, etnias, culturas e religiões, demonstrou que a tolerância é um valor teórico. Por outro lado, não nos esquecemos, como Igreja do tempo das Cruzadas, da Inquisição e das Guerras de religião. Nos nossos dias os exemplos da Irlanda do Norte, de Chipre, da Bósnia e do Kosovo continuam a ser desafios sem solução definitiva.

Desejamos que os valores dos direitos humanos, da liberdade religiosa, do respeito e da aceitação da diferença, da dignidade de cada ser humano, constituam pedras fundamentais na construção do edifício Europeu. Pedimos aos deputados eleitos para o novo Parlamento Europeu e ao Governo português que tenham sempre presente nas suas agendas estes valores e sejam as suas acções orientadas pelo espírito dos mesmos. Como Igreja em Portugal elevamos as nossas orações ao Senhor da Vida e da História para que Ele vos proteja e dirija e colocamo-nos ao vosso dispor a fim de que, irmanados num sentimento comum, contribuamos, modestamente, para a edificação de uma Europa onde o próximo seja o irmão e o amigo, o que é diferente sinta o calor do acolhimento e o mais pobre tenha o tecto e o pão de cada dia.

É esta a Europa que desejamos.

"Respeitem o direito e pratiquem a justiça" (Isaías 56:1)

Lisboa, 12 de Junho de 1999