A injustiça económica e a nossa fé

No mundo de hoje há muitas pessoas sem espaço nem tempo para gozar e celebrar a vida. Esta não é a vontade de Deus. A vontade de Deus encontra-se na visão de uma sociedade justa e pacífica na qual as pessoas não trabalham em vão, mas "construirão casas e habitarão nelas, plantarão vinhas e comerão o seu fruto" (Isaías 65, 21).

A aliança de Deus com a criação tem pouco a ver com as estruturas económicas prevalecentes e as políticas que criam a exclusão económica e social, a marginalização e a destruição ecológica em grande escala. A "força invisível" do mercado livre, que dá arbitrariamente poder e riqueza a uns e destina outros à destruição, não é Deus. A força que nos leva a acumular cada vez mais, rodando a terra em busca de ganhos, não é Deus que abençoa, mas o Mamon que encoraja a confiança na acumulação de tesouros que não duram, numa vida que perdeu todo o seu sentido (Mateus 6, 19-24). Ao confiarmos sem senso crítico nestas forças de acumulação e competição, sacralizamos o mercado. O mercado não é Deus. A economia não tem validade em si, mas é um meio para alcançar o bem-estar de toda a criação.

A graça de Deus é uma dádiva livre; não está à venda (Isaías 55, 1-3). Deus deu-nos o suficiente para que, quando partilhado, haja vida em abundância para todos (João 10,10). Deus afirma uma "economia" que cria dignidade e bem-estar para toda a criação. Consideramos que é o nosso papel de seres humanos, de mulheres e homens, crianças e idosos, sermos todos, em conjunto, jardineiros da vida, tanto local como globalmente.

Cristo existe em forma comunitária na comunidade (1 Coríntios 12, 12-31). A refeição dos cinco mil é um modelo económico de partilha em comunidade (Mateus 14, 15-21). Cristo, o poder dos sem poder, é a fonte de inspiração para resistir aos principados e poderes. A vida humana torna-se cheia de sentido quando vivida na comunidade de fé. A nossa estrutura presbiteriana e sinodal contribuiu para o estabelecimento da democracia moderna. É um desafio para nós reforçarmos a democracia e administrarmos os recursos das nossas igrejas com mais democracia e transparência. O objectivo da democracia não é meramente que todos possam votar, mas que todos sejam devidamente incluídos, tendo um papel cada vez maior na tomada de decisões, e sejam capazes de contribuir para que a responsabilidade institucional seja alargada.

Confrontados com uma economia global que a muitos nega a vida, queremos afirmar a vida. Comprometemo-nos a resistir activamente, a contribuir para a mudança da ordem económica mundial e a participar na busca de uma economia justa que afirme vida para todos. Consideramos que esta afirmação da vida, o compromisso de resistência e a luta pela transformação é hoje uma parte integral da nossa fé reformada. Os comportamentos neo-liberais exarcebados são um pecado. Queremos procurar primeiro o Reino de Deus e a sua justiça (Mateus 6,33), confessando: só Jesus Cristo é o Senhor! Cremos que Deus fará "novas todas as coisas".

Apelamos ao Governo Português, à Assembleia da República e aos organismos internacionais competentes que reconsiderem as suas políticas económicas nacionais e internacionais, no espírito dos 10 compromissos da Cimeira de Copenhaga de 1995: erradicar a pobreza "como imperativo ético, social, político e económico de toda a humanidade" (compromisso 2); promover emprego para todos como alvo político básico (compromisso 3); alcançar acesso universal e equitativo à educação e cuidados primários de saúde (compromisso 6); promover a integração social através da promoção e protecção de todos os direitos humanos (compromisso 6); alcançar igualdade e justiça entre mulheres e homens (compromisso 5); acelerar o desenvolvimento da África e dos países menos desenvolvidos (compromisso 7); assegurar que os programas de ajuste estrutural incluam objectivos de desenvolvimento social (compromisso 8); aumentar os recursos ao serviço do desenvolvimento social (compromisso 9); criar "um ambiente económico, político, social, cultural e legal capaz de capacitar as pessoas a promover o desenvolvimento social" (compromisso 1); reforçar a cooperação em prol do desenvolvimento social através da ONU (compromisso 10).

Reafirmamos a nossa fé reformada, solidária e interveniente e o compromisso que queremos assumir com os mais desprotegidos.

Lisboa, 24 de Junho de 2000

O Sínodo da Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal