Dia da Mulher 2000: Empenho feminino é tradição milenar
Eva Michel
Acabar urgentemente com o escândalo da gritante desigualdade entre homens e mulheres: durante décadas o Dia da Mulher tem vindo a apelar para esta magna tarefa a nível mundial. Uma luta que continua longe (muito longe!) de ser ganha: basta consultar os respectivos relatórios da ONU ou, simplesmente, observar o mundo que nos rodeia para nos dar conta da sua actualidade. Convém, no entanto, sublinhar: não é para se tornarem iguais ao homem que as mulheres comemoram o dia 8 de Março, mas sim, para serem respeitadas e reconhecidas na sua própria maneira de ser, de pensar e de viver! Para que, finalmente, seja valorizada essa sua insubstituível contribuição para a humanidade. Muitas mulheres cristãs alinham nesta luta, encontrando a sua inspiração numa releitura da Bíblia e da tradição cristã. O que é que nela descobrem? Para começar, e por mais incrível que pareça, a simples existência (tantas vezes esquecida) das mulheres na Bíblia: Sara, Rebeca, Lia e Raquel, e não apenas Abraão, Isaac, Jacob. Marta, Maria, Salomé e outras discípulas de Jesus, e não apenas os doze. Algumas grandes lideres políticos e espirituais, como Miriam, Débora, Judite. E, isso também, as muitas mulheres cujo nome evoca o milenar sofrimento feminino: escravas como Agar, segundas esposas como Raquel, viúvas como Noemi, imigrantes como Rute. Sem dúvida, a Bíblia reflecte a realidade da vida das mulheres deste mundo... e no entanto, não fica por aí. Pois, ao afirmar a fundamental e indestrutível dignidade da mulher, ela coloca em questão esta realidade e abre horizontes completamente diferentes. Nas palavras do livro de Génesis, mulher e homem foram criados à imagem de Deus. São filhas e filhos de Deus que trazem esta imagem dentro de si. Uma convicção, uma fé que se transforma numa extraordinária força interior e que encontra a sua expressão em acções corajosas e inteligentes (ah, como nos cegou, durante séculos, essa tradição dualista e nada bíblica que contrastava o homem supostamente forte, activo, inteligente, racional, superior com a mulher considerada frágil, passiva, menos racional, dominada por emoções, porta do pecado, inferior ! Não, as mulheres bíblicas e não apenas essas não cabem de todo neste esquema redutor!). Como, por exemplo, no caso de Pua e Chifra, das duas parteiras hebraicas (Ex. 1,17): por reconhecerem a presença de Deus, recusam-se a matar os recém-nascidos filhos de Israel, contrariando a ordem do faraó. Duas mulheres, entre muitas outras, numa longa tradição de dignidade e de liberdade, de uma "memória rebelde", profundamente enraizada na fé no Deus da Vida. Não, não é para serem "aceites" e reconhecidas pelos faraós ou qualquer outro poder vigente que estas mulheres pugnavam (e menos ainda para se tornarem iguais a ele). Pelo contrário, em nome do Deus Vivo, defendem com imensa criatividade a vida neste planeta, empenhando-se para um mundo mais humano, para homens e mulheres. Inserindo-se nesta longa tradição, muitas mulheres cristãs hoje sentem-se refortalecidas e encorajadas na sua própria determinação. E mais: descobrem nela uma fonte de ânimo, mesmo nos momentos mais difíceis. É no suave toque de Deus, como diz o profeta Oseias, no abraço terno como de uma mãe ou de um pai, que encontramos esta nova energia que nos humaniza, cura, liberta. E que é bom fazer transparecer, através de palavras e actos, neste mundo à beira do 3º milénio. |