A
Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal (IEPP), sofrendo em solidariedade com todos,
principalmente todas, que estão inquietos com a questão do aborto, sente ser seu dever
participar como Igreja na discussão nacional sobre este assunto e por isso propõe à
opinião pública os seguintes pontos de meditação:
- Concordamos com todos os que sublinham o carácter sagrado da vida humana. Ela é um dom
de Deus e ser pai ou mãe, creia-se ou não no Deus revelado pela Bíblia e acima de tudo
manifestado como o Deus de amor em Jesus Cristo, é sempre um momento sublime e de
obediência à palavra "frutificai e multiplicai-vos" (Génesis 1: 28).
- Essa cooperação com Deus dando filhos ao mundo é encorajada naturalmente pelo prazer
que a relação sexual possibilita e pelo instinto natural de maternidade e paternidade,
mas a relação sexual continua a ser legítima mesmo quando não há necessidade ou
possibilidade de procriação.
- Para evitar uma gravidez que por qualquer motivo ponderoso causasse infelicidade ou
grande transtorno ao casal ou apenas à mãe, é correcto o recurso a meios de controle da
natalidade, recomendados pela classe médica. Devem por isso os governos proporcionar aos
cidadãos de ambos os sexos, desde a adolescência, informação suficiente sobre
planeamento familiar e facilitar a aquisição de anticonceptivos de modo a que nenhuma
mulher engravide por ignorância relativamente aos métodos existentes.
- Sabe-se, no entanto, que não existe nenhum método anticoncepcional que seja infalível
e, por isso, é inevitável que, embora em número muito mais reduzido do que acontece
quando os métodos não são usados, sempre acontecerão gravidezes indesejáveis que
podem impor a necessidade da sua interrupção.
- Podem também ocorrer gravidezes resultantes de violações, não desejando as grávidas
juntar à humilhação de que foram vítimas a dor de um filho concebido contra a sua
vontade e neste caso também deve ser reconhecido o direito à interrupção voluntária
da gravidez.
- Mesmo em casos de gravidezes desejadas em que se venham a detectar malformações no
feto, ou em que a medicina receie que a continuação da gravidez pode pôr em risco a
vida da grávida, deve igualmente reconhecer-se o direito ao aborto.
- Sabe-se que o recurso ao aborto é feito em grande dor e não se desconhece que, mesmo
ainda sem consciência, o embrião é já uma expressão de vida, mas seria falta de
caridade juntar à dor de ter de optar pelo aborto o fardo pesado da condenação legal e
/ ou moral. E seria, além disso, concorrer para a manutenção dos abortos clandestinos,
que envergonham o País e levam à morte muitas mulheres todos os anos, devido à falta de
preparação dos que os praticam e às condições em que o fazem.
- Não acreditamos que a despenalização do aborto possa significar o aumento do número
de abortos no País ou que concorra para a desvalorização da vida mas, pelo contrário,
parece-nos claro que com essa medida são valorizados a maternidade e a paternidade
responsáveis e desse modo o amor e a vida humana.
- Por tudo isto pensamos que a Lei recentemente aprovada na Assembleia da República
merece o apoio de cristãos e não cristãos, devendo todos os portugueses cooperar para
minorar o sofrimento das mulheres que se debatem com o problema de gravidezes
indesejáveis e para pôr fim às vergonhosas negociatas dos abortos clandestinos.
Figueira da Foz, Junho de 1998 |