| Estudo 12- Espiritualidade e Superstição |
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Textos Sugeridos: João 20, 19, Mateus 28, 1-10, Actos 19, 11-20, Romanos 8, 1-17, Gálatas 5, 16-26 |
| Samuel Pinheiro (Arquitecto/ responsável da Convenção das Assembleias de Deus em Portugal.) |
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O natural está cheio de sobrenatural. Cada nascer do sol é um milagre como do mesmo modo cada nascimento. Onde ficam as fronteiras entre o natural e o sobrenatural? É a nossa condição humana presente que nos impede de perceber a presença constante do sobrenatural. Por muito que a ciência se desenvolva, ela só nos levará a vislumbrar cada vez mais a realidade do quanto o sobrenatural invade o natural, ou de como não podemos compreender o natural sem o sobrenatural. Do meu ponto de vista, a ciência não converte o sobrenatural em natural, nem o natural em sobrenatural, mas mostra-nos como um e outro se sobrepõem e interpenetram, da mesma forma como a fé. Pela fé entendemos a presença activa de Deus em cada partícula da nossa essência e existência. A terra está cheia da glória de Deus. A espiritualidade cristã exulta em adoração e louvor pela e na graça de Deus a nosso favor. A vida é um mistério quando a olhamos a partir da existência de Deus e um absurdo quando a perspectivamos a partir do cepticismo ou da negação de Deus. Não existimos por nós mesmos. Não nos fizemos a nós próprios. Dependemos a cada instante de Alguém que está acima de nós. Tudo o que podemos fazer ou dizer, do que podemos sentir ou imaginar, toda a nossa criação e invenção depende da própria existência que não está nas nossas mãos. A Bíblia como Palavra de Deus é a revelação através da qual podemos entender o suficiente acerca da dimensão sobrenatural e da sua relação com o natural. Deus é o Criador de todas as coisas. O natural é criação divina, da mesma forma como o sobrenatural pode ser manifestação divina. Pelo evangelho entendemos que Deus entrou em contacto directo com a nossa realidade, ou seja, que Deus se fez homem. O transcendente ocupou o imanente. O divino visitou o humano. O Criador tomou a forma da criatura. O eterno invadiu o tempo. O céu chegou à terra. O Senhor tornou-se servo. O que vai além do nosso entendimento pode ter a sua origem em Deus como pode ter a sua manifestação em agentes criados como são os espíritos malignos, criados por Deus e que se rebelaram contra Ele. Por esta Palavra sabemos que Deus é soberano e que o mal por Ele permitido foi por Ele destruído pela cruz e pela ressurreição de Jesus Cristo. Esperamos “novos céus e nova terra”. Só a aceitação humilde e simples do relato divino nos permite conhecer o que existe para além da nossa capacidade de perceber por nós mesmos. Existe hoje uma tendência de negação da operação do que a Bíblia designa de demónios. Negar esta realidade é pôr em causa a verdade bíblica. Diante da Bíblia nada temos a temer porque em Deus estamos seguros e protegidos. “Se Deus é por nós, quem será contra nós” (Romanos 8, 31). O diabo existe bem como os demónios, mas não são divinos. O cristianismo não é dualista. No nome de Jesus, mediante a vida daqueles que efectivamente n’Ele vivem, como aconteceu com o apóstolo Paulo, são repreendidos e expulsos. A espiritualidade bíblica e cristã consiste essencialmente numa relação pessoal e íntima com o Criador de todas as coisas através de Jesus Cristo, o Seu Filho, Deus encarnado, Deus connosco. A espiritualidade cristã lida com o que somos, antes do que fazemos, sentimos e temos. Ser cristão é antes de tudo o mais uma mudança no interior da pessoa. “Nascer de novo” é a forma pela qual Jesus Cristo o designou (João 3, 1-15). O apóstolo Paulo falou de ser uma nova criação e ser uma nova criatura (2 Coríntios 5,17). Esta nova essência é criada pelo Espírito de Deus. Este mesmo Espírito de Deus nos faz crescer e desenvolver na nova vida originada em Cristo. A superstição está voltada para a manipulação do divino a partir da ideia de que através de sacramentos, liturgias, elementos e fórmulas os desejos e as ambições humanas são concretizados. A tentação original tanto de Lúcifer como de Adão e Eva de serem iguais a Deus ou de se colocarem acima de Deus tem eco na superstição. Pela superstição o homem por um lado pensa conseguir levar Deus a dar resposta aos seus desejos, por outro exprime temor e medo perante as manifestações naturais. Através da fé que nos vem pela Bíblia em Jesus Cristo o medo é lançado fora. Nada há para temer quando focamos a nossa tenção no Deus criador e redentor. Tudo está nas mãos de Deus. Ele é soberano. Nada do que acontece foge à Sua providência e permissão. É Deus e não a criação que recebe a nossa atenção e dependência. A criação fala-nos do Criador, do Seu desígnio e propósito, do Seu poder e amor mas não se confunde com ela. Deus não é uma força cósmica. Deus é pessoa. Práticas que envolvem o uso de elementos naturais como portadores de poderes sobrenaturais são alheias ao Evangelho de Jesus Cristo. Normalmente a cultura supersticiosa é facilmente aliciada pela mercantilização da fé. Os dons de Deus não se compram nem se vendem. A graça é pela graça. Comercializar as dádivas divinas é uma afronta que deve ser claramente denunciada e repudiada. O cristianismo apresenta-nos um projecto integral: espírito, alma e corpo; tempo e eternidade; terra e céu; passado, presente e futuro; indivíduo, sociedade, família e humanidade. Através da Bíblia acreditamos que Jesus Cristo continua a perdoar, reconciliar, salvar, libertar e curar, animando e motivando a pessoa a interessar-se pelo seu próximo. A Igreja cristã tem como propósito viver e apresentar esta integridade de vida. Cura para o espírito, a alma e o corpo; reconciliação com Deus, o próximo e nós mesmos; viver com determinação e expectativa “os novos céus e a nova terra em que habitarão a justiça para todo o sempre”. |