| Estudo 11- Anúncio do evangelho hoje |
| Actos 1,1-8 (Mt. 9,35-10,10; 10,26-31; 16,13-20; 25,14-30; 1Cor 9,15-22) |
| Pedro Zamora (pastor da Igreja Evangélica Espanhola/ Reitor do Seminário Evangélico Unido de Madrid) |
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Introdução Matizemos o breve título: “O anúncio do evangelho hoje” e perguntemos: “Ainda faz sentido anunciar o Evangelho hoje em dia? Muitos crêem (e cada um de vós que pensa?) que o tempo de missão já terminou: Anunciar as Boas Novas de salvação do Senhor Jesus Cristo é algo passado, já que este tipo de missão se pode considerar uma intromissão na vida pessoal de cada qual. Ou seja, este tipo de anúncio evangélico está muito desvalorizada na sociedade e também em bastantes sectores das igrejas. Para contestar esta opinião, não basta no entanto, citar textos bíblicos sobre a missão. Pelo contrário, há que reconhecer a existência das causas profundas deste desprestígio, a saber: muitos modelos actuais de missão são modelos manipuladores e muitas vezes no passado a missão chegou mesmo a confundir-se com colonização. (Recordemos a história de Portugal e de Espanha) Por outras palavras, a ideia de missão ganhou para muitos dos nossos concidadãos – e infelizmente para muitos dos nossos paroquianos – conotações inaceitáveis de dominação e de manipulação do outro. Testemunhos de uma causa perdida A perícopa de Actos mostra com que facilidade os seguidores de Jesus podem fundir a ideia de missão com a tentativa de controlar o outro: enquanto que Lucas se esforça para dar fé das promessas de Jesus aos seus discípulos, estes preocupam-se com a restauração do Reino (ou seja o poder político, da autoridade política – vv.4-6) de Israel. A resposta de Jesus é seca: “não vos pertence saber o tempo ou o dia”…(v.7) e o versículo 8 começa com uma frase adversativa: “ mas recebereis poder (…) para ser minhas testemunhas (…) até aos confins da terra” (v.8). Ou seja, as palavras de Jesus emendam a visão de poder demonstrada pela pergunta dos discípulos: não se trata de um poder real sobre uma nação do mundo, mas sim das força para ser testemunha (mártir em grego) universal de Jesus. E porque é necessária esta força para se ser testemunha de Jesus? Porque se trata de dar testemunho a favor de um condenado e executado pelas autoridades humanas! O seguidor de Jesus não é um fiscal da autoridade humana, nem um defensor que recebe autoridade para defender a um acusado. Por outras palavras, o seguidor de Jesus não faz parte do sistema de poder; é simplesmente uma testemunha. Para além disso, o seguidor de Jesus não é uma testemunha de defesa ou acusação convocada pelo sistema de autoridade (neste caso o poder judicial), é na verdade, uma testemunha sem causa, dado que o caso já foi encerrado pelo sistema judicial. Jesus já foi acusado, condenado e executado. Jesus perdeu a sua causa perante a autoridade humana, e as suas testemunhas de defesa são testemunhas de uma causa perdida. Compreender isto é de importância vital para interiorizar no mais profundo do nosso ser e da nossa fé, que a missão da testemunha não é ganhar uma causa, porque esta já foi perdida. Por tanto todo o seguidor de Jesus deve renunciar a qualquer forma de manipulação o de controlo do seu testemunho. Testemunhas de uma libertação ganha/conquistada O chamar de testemunhas por parte de Jesus, acontece após ter perdido a sua causa perante as autoridades humanas, ou seja depois da sua execução; e este chamamento ocorre no contexto de ressurreição e ascensão ao céu. (vv.2-3) Perante estas duas realidades é interessante sublinhar que Jesus não voltou dos mortos para levantar um exército que castigasse os seus falsos acusadores. ( e é melhor que ninguém recorra ao livro de apocalipse para defender esta tese, já que toda a linguagem bélica deste livro é uma grande ficção literária sobre a força da Palavra). Este chamar de testemunhas, não tem a ver com vingança, mas sim com recrutar testemunhar, e o poder de que se fala, o poder do Espírito Santo, é claramente o poder do testemunho. É o poder de quem faz suas as palavras e a vida de Jesus e libertam assim as suas próprias vidas dos poderes humanos que os escravizam, e que por isso, pode agora dar testemunho vivo dele! Curioso paradoxo! O rei foi condenado, mas as suas testemunhas foram redimidas, encontraram vida na sua morte! E porque devo ser testemunha de Jesus? Tudo isto pode soar muito bonito, mas uma pergunta segue subjacente ao título: E porque é que devo ser testemunha de Jesus? Por outras palavras: porque é que devo assumir uma responsabilidade de anunciar o evangelho de Jesus Cristo ao meu próximo? Porque é que devo apelar a outras consciências, com a afirmação de que Jesus é a libertação ou a salvação? O primeiro ponto a considerar é que, quer queiramos quer não, somos sempre testemunhas de algo ou de alguém. Com a nossa vida e com o que fazemos, somos testemunhas do que realmente consideramos redentor para a nossa vida e, por conseguinte para a sociedade. Por seu lado a sociedade nunca deixa espaços sem algum tipo de testemunho: há sempre alguém o algo que compete entre si para dar fé daquilo que considera melhor. De facto a nossa sociedade baseia-se na competência, tanto a nível empresarial e económico, como a outros níveis menos “materialistas”; e a competência usa todo o tipo de publicidade, de modo a que, todo o indivíduo se sujeita a um constante bombardeamento de mensagens que pretendem ser testemunho de algo. Por outras palavras: É-se sempre testemunha de algo ou de alguém; constantemente recebemos testemunhos alheios. A verdadeira questão, é portanto: De quem ou de que é quero eu ser testemunha? Vendo as coisas deste ângulo, ninguém tem uma postura inócua na sociedade: ou se é testemunha de alguém ou de algo e nem sequer se tem consciência disso, ou se toma uma decisão pessoal e consciente sobre que tipo de testemunho se deseja dar. E dado que todo testemunho pretende transcender-se a si mesmo incidindo nas pessoas do grupo, não será melhor que cada um de nós tome uma decisão consciente sobre o que de verdade considera digno de dar testemunho? Por tanto creio sinceramente que cada um de nós tem que dar uma resposta honesta. Se uma pessoa não crê na missão da igreja ou em dar testemunho de Jesus Cristo, quem sabe é porque nunca experimentou a sua morte e ressurreição libertadora, e portanto não pode ser realmente testemunha de Jesus, ainda que seja membro de uma igreja! Mas também pode ser que essa pessoa tenha um conceito errado do que significa missão, (e existem muitas razões históricas e de peso que configuraram abordagens muito erradas de missão!) tal como os discípulos tinham conceitos errados. Neste caso, é importante estar disposto a aprender e a mudar para levar o testemunho de Jesus Cristo “até aos confins da terra”. Actividades 1) Como se afirma neste estudo, a nossa sociedade está cheia de testemunhos de todo o tipo. Incluindo diversos tipos de testemunho cristão: cristianismo hierárquico o anti-hierárquico, carismático ou anti-carismático, etc.. Por isso é importante saber que tipo de testemunho queremos dar. Penso que por isso seria interessante debater em grupo e por ordem as seguintes perguntas: · Qual é o testemunho de Cristo que nós damos, (ou devemos dar)? E que tipo de testemunho é que as outras pessoas nos dão? · Será que este testemunho é imprescindível para o ser humano – e por tanto para a nossa cidade, bairro, etc.. – ou pelo contrário é prescindível e só mais um entre dezenas de outros testemunhos que há por aí? · Quando se chegar a uma conclusão, é importante questionarmo-nos: e agora? O que é que vamos fazer? Se o debate mostra uma falta de consciência clara sobre a nossa contribuição particular, como crentes ou como igreja, ao testemunho de Cristo, então devemos admitir que temos diante de nós um diagnóstico desalentador da nossa realidade eclesial. Se este for o caso, a pastoral deveria ser inteiramente missionária, começando do início: o anúncio evangelístico das Boas Novas à congregação. 2). Propõe-se aqui uma encenação: imaginemos uma reunião de conselho de igreja (não mais do que 5 pessoas), para preparar um projecto de testemunho, claramente orientado para o anúncio e não a diaconia. Algumas características particulares:
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