Estudo 9-  Responsabilidade pela criação
 
Gen. 1,24-31; 2,15 (Outros textos: Gen. 9,8-17; Salmo 104)
José Salvador (pastor presbiteriano)

A compreensão inadequada da palavra de Gen. 1:28, (...enchei e terra, e sujeitai-a; e dominai...) tem justificado toda a sorte de atropelos sobre a Criação. Mas a Palavra nos diz que Deus espera de nós algo bem diferente!

Não é desde há muito tempo que a Igreja se preocupa, de forma contínua e sistematizada, com os problemas da natureza, reflectindo teologicamente sobre as condições do meio ambiente, as suas possíveis consequências para a vida e a nossa responsabilidade na preservação da Criação. Mesmo se na Conferência sobre o Meio Ambiente promovida pelas Nações Unidas em 1972, em Estocolmo, esteve presente e teve uma intervenção importante um representante da Comissão das Igrejas para os Assuntos Internacionais do Conselho Mundial de Igrejas, realmente foi só na década de 80 que as Igrejas começaram a levar mais a sério a problemática da Criação e da responsabilidade cristã para com ela, tomando iniciativas que culminaram com a realização da Assembleia Ecuménica Europeia de Basileia em 1989, sob o tema “Paz e Justiça para toda a Criação”, e com o congresso mundial de Seul, organizado pelo CMI em 1990, para ser o ponto alto do programa “Paz, Justiça e Integridade (salvaguarda) da Criação”. A continuação deste programa havia de ser decidida na Assembleia Geral do CMI, realizada em Camberra em 1991, e, finalmente, o Comité Central do CMI decidiu, em 1994, na África do Sul, que uma das quatro Unidades de serviço do Conselho se chamaria precisamente “Paz, Justiça e Integridade da Criação” e se ocuparia de forma regular e sistemática de toda esta problemática.

Ron Elsdon, no seu livro “Green House Theology” lembra que ainda há muitos cristãos que vêm nestas questões aquilo que os ingleses chamam “red herrings” (arenques vermelhos), ou seja, tentativas políticas (comunistas?), mais ou menos encapotadas, de desviarem a nossa atenção do tema central da Bíblia, que é a Salvação, e da missão fundamental da Igreja que é a Evangelização. Talvez porque muitos ainda continuam a ver “o mundo” como algo fundamentalmente mau, domínio do pecado e de Satanás, e destinado a ser consumido no fim dos tempos (cf. II Pedro 3,10-12).

No documento Compromisso Cristão Pela Reconciliação, aprovado na Assembleia Ecuménica Europeia de Graz (1997), podemos ler: “Não pusemos em prática o mandamento divino de tratar com respeito a criação inteira e de trabalhar para ganhar a sua integridade. Interpretamos abusivamente a exortação bíblica de submeter e dominar (Gen. 1:28), como se nos dessem licença para explorar conscientemente e de maneira egoísta as riquezas da criação...”.

Mas qual é o lugar que a Criação ocupa na Bíblia?

Ron Elsdon crê ter encontrado um fio condutor que atravessa toda a Bíblia, ao lado daquele que todos conhecemos e apregoamos - a ideia da Salvação - e intimamente ligado a este: a Bondade da Criação, e o cuidado de Deus por ela. Eis algumas das pistas de reflexão deste autor que podem ajudar o nosso estudo e que giram em torno da Bondade da Criação – “e viu Deus que era bom” (espécie de refrão após cada acto criador e que, diz Elsdon, são como que um coro de louvor pela criação).

1. Há muito poucas referências a Génesis 1, no resto do A.T. o que leva muitos a pensar que o seu tema (Criação) é pouco importante na Bíblia - a Salvação é que importa. Um olhar mais atento mostrará que a Boa Criação é o cenário sobre o qual se desenrola todo o drama da história do A.T.. Criação e Salvação atravessam toda a Bíblia, na forma de uma relação tão próxima que uma não pode ser entendida sem a outra. A doutrina da Criação, tal como é desenvolvida no A.T., tem tudo a ver com as relações da Humanidade com o resto da criação, e é um bom ponto de partida para nos situarmos como cristãos face à obra de Deus.

2. Gen.1-11, que alguns chamam “história primitiva”, é uma espécie de prólogo do Pentateuco e mesmo de todo o A.T. (semelhante a João 1,1-14 em relação ao N.T.). Narra a criação, a queda, o dilúvio e a Aliança com Noé e toda a criação, a dispersão da Humanidade. Mostra como tragicamente a raça humana se afastou da glória pretendida pelo Criador. A ênfase passa depois para uma pessoa - Abraão - chamado para um fim especial (Gen.12,1-3): ser fundador de uma nação, “na qual todas seriam benditas” (Gen12,2-3), pois Israel “seria luz das nações” (Isa.42,6-7; 49,6). Esta chamada envolve a promessa de uma terra para viver, de forma responsável. A terra é uma dádiva de Aliança, cuidar dela era uma empresa incluída na responsabilidade de Israel de viver em obediência à graça de Deus. Esta era a sua escolha: viver em fidelidade e ter uma vida próspera numa terra abençoada, ou desobedecer e enfrentar a ruína total, incluindo a da própria terra (Deut. 28).

O teólogo W. Eichrodt (citado por Elsdon) comenta: “Ao fazer a possessão da terra dependente da fidelidade à Aliança, Deus inclui a relação do Homem com a Natureza dentro da esfera de um comportamento humano responsável, imprimindo nele uma posição distinta no mundo das criaturas. O seu pecado significa que a terra é aviltada, e a mesma terra vomitará a nação que se tornou infiel à sua responsabilidade moral” (Theol. O. T., 2 Vol.).

3. A repetida afirmação de Gen. 1 de que “era bom” (vs 4, 10, 12, 18, 21, 25), termina com a proclamação ainda mais forte do v 31, e Deus viu o que tinha feito “e eis que era muito bom”. Infelizmente a inútil e muitas vezes irracional controvérsia entre “criacionismo” e “evolucionismo” tem feito centrar a atenção sobre a palavra “dia”, levando a crer que tudo o resto no texto é sem importância. Mas se a “bondade da criação” é sublinhada praticamente em cada dia, então este tema deve ser visto pelo menos como tendo a mesma importância daquele e deve merecer mais importância do que a que se lhe dá habitualmente.

4. Muitos dos indicativos do significado exacto da “bondade da Criação” de Gen. 1, podem igualmente encontrar-se no Salmo 104, embora a linguagem seja diferente. Isto é mais do que mera coincidência. Um comentador do AT escreve: “A estrutura do Salmo é estreitamente modelada com a de Gen. 1, tomando os diferentes estágios da criação como pontos de partida para o louvor”. Depois ele demonstra, de forma detalhada, como Gen. 1 e o Salmo 104 têm uma constituição muito similar (Derek Kidner, citado por Elsdon).

No livro Caring for Creation, Peter Harris, antigo director de A Rocha Portugal (A Rocha é uma organização cristã internacional dedicada à conservação do meio ambiente), publica um artigo sobre Gen. 9,8-17, intitulado “Aliança de Deus com a terra”. Ele lembra o facto de tudo ter começado (a história do dilúvio) por causa da maldade humana (Gen. 6,5) e de como nós vivemos hoje uma situação paralela com a forma como destruímos a criação. Assim como a desobediência a Deus trouxe então consequências para toda a terra, assim está a acontecer hoje. Não é possível continuar a explorar indiscriminadamente a terra em nosso proveito, em detrimento do respeito pela Criação de Deus, sem que daí advenham consequências. Na Aliança com Noé Deus promete vida para toda a criação. Isso é repetido várias vezes nestes versículos e aponta claramente para a nossa responsabilidade pela conservação da natureza.

Por isso “Não tenhamos Medo”, mas enfrentemos com coragem os desafios que nos são propostos pelo Evangelho da Vida para toda a Terra. Não tenhamos medo de encarar a possibilidade de uma vida mais simples, sem tanto consumismo e “conforto”, mas com mais Paz com Deus e a Natureza!...

Sugestões para a animação do Grupo:

1)       Visionamento do vídeo “On m’a dit” (se estiver disponível)

2)       Discussão do vídeo e sua relação com o Tema e os textos

3)       Divisão em pequenos grupos:

Grupo I – Documento de Basileia (Capitulos III e IV)

Grupo II- Documento de Graz (Capítulos 5 das Recomendações e dos  Fundamentos teológicos das Recomendações)

Grupo III – Estabelecer o paralelismo entre Gen 1 e o Salmo 104

Grupo IV -  Aliança de Deus com Noé e relação com Gen 2,15

Grupo V (ou Plenário) – Sugestões de práticas simples para a vida individual e colectiva – uso da água, do papel, do plástico, da electricidade, dos meios de transporte, reciclagem de lixos, etc.

4)       Partilha dos grupos em plenário.

Se o Estudo Bíblico puder ser anunciado e preparado com antecedência pode sugerir-se uma pesquisa na Internet sobre o Protocolo de Kyoto e outros documentos sobre meio ambiente.