| Estudo 7- Violência humana e justiça de Deus |
| Isaías 11,1-9 |
| Timóteo Cavaco (Secretário geral da Sociedade Bíblica de Portugal) |
|
Introdução Será certamente um lugar-comum afirmar que onde estão dois seres humanos aí estão necessariamente duas opiniões diferentes. Pior é, todavia, quando onde está apenas um ser humano ali param duas opiniões. Não que a pluralidade de opiniões seja negativa ou entorpecedora. Bem pelo contrário, a vivência da pluralidade e da diversidade de opiniões, de concepções, de sentimentos e mesmo de crenças é um importante elemento do cunho social da humanidade. No entanto, essas mesmas pluralidade e diversidade quando não são devidamente nutridas e desenvolvidas podem facilmente transformar-se no combustível para o conflito, para a dissenção, para a violência e mesmo para a ruptura. Vivemos, por consequência, num mundo de claros contrastes no qual, ao mesmo tempo que ficamos fascinados com os progressos, quedamo-nos desiludidos ou mesmo aterrorizados com determinadas atitudes e comportamentos. Por exemplo, este “nosso mundo” a que chamamos de “Primeiro”, “Civilizado”, “Desenvolvido”, aquele que é o berço das democracias modernas e liberais, é também o que vê surgir sentimentos irracionais de racismo, de nacionalismos exacerbados e de xenofobia. Ao mesmo tempo que somos capazes de entronizar os ricos e famosos, assistimos a preocupantes sinais de pobreza tão aterradores e expressivos que não se distanciam muito daqueles que a História localiza na Antiguidade ou na Época Feudal. A violência não é apenas um fenómeno com conteúdo físico, mas com muito de psicológico, social, comportamental e civilizacional. A pergunta que sempre fica a pairar é se há solução para este pântano de inconsistências em que vivemos. A Bíblia certamente nos poderá ajudar a dar resposta a esta questão. Contexto Geral Talvez em nenhum outro texto bíblico vejamos tão bem espelhada a enorme distância que separa o homem pecador do Deus Santo, como o que encontramos no capítulo 6 do livro do profeta Isaías. O mundo de contrastes de que atrás falávamos é o mais puro reflexo da insensatez humana, numa palavra, do pecado. Quando o profeta percebe a sua incapacidade para apreender a grandeza de Deus, irrompe em exclamação: “Ai de mim, estou perdido! Sou um homem de lábios impuros, que vive no meio dum povo de lábios impuros, e vi com os meus olhos o rei, o Senhor do universo” (Isaías 6,4b). Não é, pois, de admirar que este tema seja profusa e recorrentemente tratado em Isaías. O próprio contexto em que o livro é escrito propicia essa mesma temática. Isaías é o livro do Antigo Testamento em que mais se fala no Espírito Santo, pelo que se pode claramente perceber a tónica de um Deus que não abdicando da Sua pureza e do Seu carácter único, está disposto a transmitir padrões de justiça e rectidão à Sua criação. Texto-base O texto em apreço, independentemente dos inúmeros escrutínios exegéticos a que tem estado sujeito ao longo dos séculos, deve ser entendido à luz do seu contexto específico. Os capítulos anteriores (7-9) parecem surgir num âmbito messiânico mais iminente que aponta claramente para o nascimento do Emanuel, o Filho nascido da virgem. O presente texto parece dirigir-se a um outro tempo, um tempo mais distante, que, assim, pressupõe a rejeição do “Deus connosco” do capítulo 7. Seja como for, o Deus de Isaías, o Deus da Bíblia é um Deus atemporal, não sujeito às flutuações próprias das diferentes épocas em que a Sua revelação se vai processando aos olhos do homem. Como tal, o mais importante a reter do presente texto são as características da Justiça de Deus em clara contraposição com a iniquidade humana. Vejamos com maior atenção algumas dessas características: v. 3 – O Rei que aqui nos é apresentado não vai julgar por meio de padrões humanos que levam em conta os sentidos de ver e ouvir; pelo contrário, este Rei usará o discernimento divino, por intermédio do Espírito. v. 4 – O Rei que Isaías nos apresenta é ao mesmo tempo o Justo Juiz. Ele não negligencia os desprezados da sociedade, mas ao mesmo tempo exerce com rigor as suas responsabilidades. O discernimento do Rei-Juiz é perfeito e, por isso, nada há a temer em relação às Suas sentenças. v. 5 – O “cinto” é aqui o elemento pictórico e simbólico que denota o atributo da Justiça como parte intrínseca da natureza divina. No contexto em que estas palavras foram escritas, o cinto, ou o cinturão, segurava todas as peças do vestuário, tornando-as uma única peça de vestir, ou seja, dando-lhes uma unidade funcional. Do mesmo modo, a Justiça de Deus é o elemento unificador de todos os Seus restantes atributos. Por absurdo, se Deus não fosse Justo não seria Deus. Mais complexa é a condição do ser humano que podendo potencialmente participar deste atributo escolhe frequentemente não o fazer, razão pela qual surgem as dissenções e as guerras, enfim, a violência. Discussão do Tema O apóstolo Paulo foi muito claro ao afirmar: “Não há ninguém que seja justo. Ninguém” (Romanos 3,10b). Com estas palavras percebemos com clareza a nossa condição de seres humanos. Aliás, ao longo da História esta tem sido uma preocupação quase constante na evolução do pensamento e das mentalidades. Trasímaco (c. 460 a.C.), influente pensador da escola sofista, defendia que “poder é direito” no contexto muito particular do relativismo que caracterizava esta linha de pensamento. Platão (427?-347? a.C.), por sua vez, em claro contraste com os sofistas, fala-nos da Justiça, na sua Teoria das Formas, como um “universal”, ou seja, como uma propriedade que pode ser traduzida por um conjunto de coisas particulares diferentes, neste caso as aplicações humanas da Justiça. No entanto, o conceito de “imperativo categórico” no filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) é o que nos vai trazer uma visão ainda mais elevada do conceito da Justiça, com particular incidência nas implicações éticas da vivência e aplicação dessa Justiça. O texto bíblico termina com uma visão idílica dos efeitos da aplicação da Justiça de Deus (vs. 6-8). Até a natureza pode alterar de forma óbvia e visível os seus comportamentos quando essa mesma Justiça é aplicada. O v. 9 é praticamente um resumo de toda esta secção que aponta para uma reversão da própria natureza. Assim, quando a Justiça de Deus vingar perante a violência humana, o Paraíso será novamente uma realidade. Textos Bíblicos Complementares Isaías 24 – Analisar este texto na perspectiva da enorme impotência humana resultante do seu afastamento do Criador. Prestar particular atenção ao v. 16 em que o binómio “Deus justo / homem perdido” é mais uma vez ressaltado. Jeremias 7 – Analisar este capítulo centrando as atenções na secção dos vs. 21-28. Os sacrifícios ao Senhor de nada servem se não houver verdadeira obediência ao Deus que ordena esses sacrifícios. Mateus 26:47-52 – Analisar esta perícope do Evangelho tendo em conta o facto do engenho humano (criação de Deus) ser tantas vezes usado para atentar contra o próprio Criador. Judas traiu Jesus com o conhecimento resultante da intimidade que o Mestre com ele partilhara. Propostas de Discussão e Tratamento do Tema
|