Estudo 5-  Liderança na Igreja
Liderança na Igreja
Colossenses 1,15 – 2,10
John Pallister, membro da Igreja Evangélica Baptista. Assistente do Grupo Bíblico Universitário (GBU)

Há duas ideias principais na carta de Paulo aos Colossenses: o “plano misterioso” de Deus, e a “esperança da glória divina” nos Colossenses. Como vamos ver, as coisas estão intimamente ligadas.

Aqui, Paulo não ensina sobre liderança, mas fala da sua vocação. Isto vai ajudar-nos a perceber como é que a doutrina da salvação e da Igreja devem moldar a compreensão do papel do líder.

Reconciliar todo o universo – não só salvar as pessoas

O plano misterioso é revelado no poema quase no início (1,15-20). É algo de inacreditável: um judeu oriundo de uma cidade insignificante “é a imagem do Deus invisível”. Como é que pode ser? Como é que Deus pode caber num mero homem?

Em vez de responder a esta questão, Paulo vai ainda mais longe: “Foi por ele e para ele que Deus criou tudo (...) e é ele que dá consistência a tudo o que existe”. Sem Cristo o mundo não teria começado a existir, e sem Jesus o mundo não poderia continuar a existir.

Se isto é assim, porque é que o mundo está como está? Deus não poderia ter feito melhor? Há imensas coisas que se vêem (1,16) que não funcionam bem. Basta pensar nas guerras, nas desigualdades a nível mundial e na nossa sociedade, no sofrimento causado pelas catástrofes naturais.

Mas também há muitas coisas que não se vêem que não estão bem, e que causam esses e outros problemas. A nossa mente moderna fica incomodada com a ideia de “forças espirituais” ou “domínios”: parece superstição. Contudo, se pensarmos numa tradição – por exemplo, a Queima das Fitas em Coimbra – temos um exemplo de uma força que não vemos, e que leva as pessoas a, fazer muitas coisas: comprar o traje, gastar muito tempo a decorar carros com flores de papel, celebrar e beber muito durante uma semana. Também quando os políticos dizem que o desemprego é consequência de a economia estar estagnada, estão a confessar que há um poder invisível maior do que o deles.

Assim, esta ideia torna-se mais compreensível: há poderes desregulados que precisam de ser reconciliados. Não são visíveis, mas não são menos reais por isso.

A melhor notícia que Paulo dá nesta carta é que Deus deseja reconciliar todo o universo, incluindo estes poderes desordenados. Mais, ele diz que Deus tem um plano a decorrer para fazer isso. Esse plano é a “morte do seu Filho na cruz”. Esta ideia é extremamente chocante, mesmo que os nossos ouvidos já não notem. Sobretudo naquela altura, uma execução política não era nada pacificadora, porque reiterava o poder que os romanos tinham sobre os judeus.

Apesar disso, esse momento trágico é o centro da história do plano de Deus, porque foi ali que “tudo o que existe na terra e no céu ficou em paz” com ele (1,20).

Voltamos à mesma questão: onde está essa paz? Vemos à nossa volta guerras e calamidades, pobreza e violência.

A resposta é que nós ainda não vemos isso porque Cristo é “a origem” (1,18) da pacificação. A guerra está ganha porque Cristo venceu a batalha decisiva – mas ainda é preciso vencer algumas batalhas.

Reconciliar os cristãos na Igreja – ser cristão nunca é só uma experiência individual, é passar a pertencer à comunidade da fé

Quem é que deve travar essas batalhas? Se Cristo venceu a guerra, o seu “corpo” pode e deve viver essas vitórias.

Cristo é a cabeça da Igreja, e a Igreja é o corpo de Cristo. Paulo usa esta metáfora muitas vezes. (Neste estudo, vamos falar de Igreja no sentido amplo, universal, que inclui todos os crentes, e não de uma instituição, denominação ou congregação local.)

O que é a Igreja? Como vivemos numa sociedade individualista, costumamos pensar que é uma instituição que reúne pessoas que têm a mesma experiência religiosa. Isso é verdade, mas só uma pequena parte da verdade. Não é correcto que nos convertemos e depois nos juntamos à Igreja: a conversão é passar a pertencer à Igreja, isto é, ao corpo unido daqueles que partilham as suas vidas em função de Cristo, seguindo o ensino dele e continuando a sua presença na terra. É por isso que Paulo diz que o seu sofrimento completa os sofrimentos de Cristo – não é que ele tenha um lugar destacado na Igreja, mas ele sabe que a sua função é servir a Igreja, que é o corpo de Cristo (1,24-5).

Por outras palavras, não existe uma vida cristã puramente individual. A vida cristã é vida da comunidade da fé, em que as raças e as classes sociais são irrelevantes (3.11) Que privilégio extraordinário! Não só somos salvos, mas pertencemos ao corpo de Cristo, que continua o seu ministério.

Vestir uma nova vida: mudar de equipa, mudar de vida

Passamos assim, naturalmente, à outra ideia. O lugar dos Colossenses – e de qualquer cristão – no plano de Deus “é que em vocês está Cristo que é a vossa esperança da glória divina” (1,27).

O que quer dizer que Cristo está neles, e que Cristo está em nós? É uma experiência interior, claro, mas não só. Paulo usa uma imagem fantástica que é muito mais abrangente: ele diz que devemos despir o homem velho e vestir o homem novo (3,9-10, de acordo com a tradução de Almeida; a Boa Nova esbate esta metáfora).

É frequente um futebolista mudar de equipa. Quando isso acontece, ele veste o equipamento da equipa que o comprou. Às vezes ele vai até para uma equipa adversária. Paulo diz que é isso mesmo que acontece com os cristãos: a compra já foi feita, Cristo já pagou pelas nossas vidas com a sua morte, e por isso nós agora podemos vestir o homem novo, isto é, ter Cristo em nós.

Não é apenas um acontecimento interior, não é apenas a salvação da alma. A vida velha é substituída pela vida nova, e isso nota-se na forma como vivemos.

O grande problema é que é possível afastarmo-nos da fé (1,23). Seria ridículo um jogador aparecer num jogo com a camisola da equipa adversária – mas muitas vezes nós fazemos isso mesmo, quando praticamos “a imoralidade, a devassidão, a sensualidade, as paixões desordenadas e a cobiça” (3,5), em vez de vestirmos “sentimentos de compaixão, bondade, humildade, modéstia e paciência” (3,12).

Esta ideia de despir o homem velho e vestir o novo mostra como a doutrina de Deus, de Cristo e da Igreja tem que ter consequências éticas muito vincadas. “Acima de tudo, tenham amor, que é o que une perfeitamente todas as coisas” (3,14). Paulo não está a falar só de sentimentos de amor (já falou de sentimentos antes): está a relacionar a morte de Cristo, dádiva sacrificial do amor de Deus, com a vida que nós devemos viver enquanto Igreja: sacrificarmo-nos a nós mesmos em respeito e cuidado com aqueles que nos rodeiam.

Isto ajuda-nos a perceber que a salvação não é só um acontecimento momentâneo, uma oração de entrega a Deus: é também um processo longo que só terminará quando Cristo regressar. Ainda há muitas pessoas e muitas coisas – mesmo na vida dos cristãos! – que não estão em paz com Deus. A tarefa da Igreja é exemplificar o que significa essa reconciliação.

Esta batalha, como a batalha da cruz, só pode ser vencida pelo amor, e não pela violência. Devemos seguir Jesus com toda a confiança de que ele já ganhou a grande vitória, e que todas as coisas lhe estão submetidas – e devemos persistir, em amor, na oração e no esforço de submeter todas as coisas a Cristo, na nossa vida pessoal e nas situações em que encontramos injustiça.

Liderança no corpo de Cristo – o exemplo de Paulo

Colossenses 1,15 – 2,10

Perguntas para estudo individual ou em grupo

Leia toda a carta uma vez, como se tivesse acabado de receber uma carta de um amigo. Não demora mais do que vinte minutos.

Qual é a relação entre a doutrina e o exemplo da liderança de Paulo? Leia novamente a passagem escolhida.

O plano ambicioso de Deus

Costumamos pensar que a morte de Cristo é para salvar a alma daqueles que se convertem ao cristianismo, mas este poema mostra que Deus quer fazer muito mais: “reconciliar consigo todo o universo” (1,20). Quais são algumas coisas que precisam de ser reconciliadas no mundo hoje? Quais são alguns problemas na sua vida que precisam de ser apaziguados?

O nosso lugar no plano de Deus

Como é que os colossenses passaram de “inimigos” a “amigos” de Deus? Quais são as consequências dessa mudança de equipa? (1,21-22)

Em que situação é que você está: inimigo ou amigo de Deus?

Se já está reconciliado com Deus, há alguma coisa que está a tornar difícil que se mantenha bem fundamentado na fé? (1,22-23)

Como é que a cabeça comanda o corpo? Se Cristo é a cabeça da Igreja, qual deve ser o objectivo principal da Igreja? (1,18)

Paulo, um líder no plano de Deus

Estamos habituados a um estilo de liderança empresarial, em que o chefe é uma pessoa importante e os seus subordinados têm que se seguir as ordens (razoáveis ou não). A Igreja também está infectada por esta mentalidade. Ora seguimos tudo o que os nossos líderes dizem, ora os rejeitamos como uma pessoa que deixa um emprego.

Vamos agora ver qual é o exemplo de Paulo enquanto líder, que assenta na perspectiva sobre a reconciliação e sobre a Igreja.

Como é que Paulo consegue estar alegre, apesar das dificuldades? (1,24; ver também 4,3)

Qual é a vocação de Paulo? (1,25) O que é que ele faz para cumpri-la (pelo menos quatro coisas)? (1,27 – 2,9)

O que é Paulo tenta que os cristãos aprendam (pelo menos duas coisas)? (1,27 – 2,9)

O que é Paulo tenta que os cristãos façam (pelo menos cinco coisas)? (1,27 -2,9)

Como é que se avalia em cada uma dessas coisas?

Paulo delicia-se com a vida e o crescimento dos cristãos de Colossos e Laodiceia (2,5), tal como os pais têm alegria em ver o seu filho crescer. Pense por um momento nos líderes da sua Igreja. Quais são as características deles em que são parecidos com Paulo?

Pense agora por alguns momentos nas as áreas em que eles têm falhado.

Qual é a postura de Paulo em relação à falta de firmeza dos Colossenses? (1,23-29) Tendo isso em vista, qual deve ser a nossa postura em relação às qualidades e às fraquezas dos nossos líderes?

Faça uma lista com algumas coisas que precisa de mudar na relação com os seus líderes (por exemplo, deixar de fazer só comentários críticos, não falar mal deles nas suas costas; elogiar as qualidades, orar por eles, etc.). Inclua algumas formas de os encorajar nesta tarefa da Igreja de reconciliar todas as coisas.

Resumo

A verdadeira liderança cristã é serviço à Igreja que, enquanto corpo de Cristo, deve continuar o seu ministério de reconciliar todo o universo com Deus. Assim, o líder procura que os seus membros se “tornem perfeitos em união com Cristo” (1,28) ensinando, encorajando, dando exemplo e orando sempre por eles (1,9).