| Estudo 4- A coragem de ser profeta |
| I Reis 18,22 a 19,18 |
| Paulo Silva (pastor presbiteriano) |
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Estamos em pleno reinado de Acab. Este monarca ficou conhecido nos anais de Israel como um modelo de corrupção e de impiedade não tanto pelos seus actos, mais ou menos repreensíveis, mas por causa da sua mulher, extremamente influente nas decisões e acções políticas da sua governação. Se, por esse facto, se dá de Jezabel uma imagem inqualificável, é por ela ter sido, com toda a probabilidade, uma mulher inteligente, tenaz e de personalidade vincada a ponto de ter assumido claramente o controlo das políticas religiosa e diplomática. Jezabel era filha dos reis de Sidon e a sua ascensão ao trono de Israel fazia recordar os tempos em que Salomão, já no epílogo do seu reinado, se afastara do Senhor admitindo a construção de templos que consagravam outras divindades no interior do território de Israel isso como consequência de se ter deixado seduzir por mulheres estrangeiras. Como resultado do seu afastamento de Deus adveio a queda do reino unido de Jerusalém e a separação em dois reinos que entre si se opunham. Acab, desposando Jezabel, segue Salomão perdendo por isso o respeito do povo. Esta política religiosa vai conduzir muitos israelitas à idolatria sanguinária e opressora de Baal e à infidelidade e esquecimento dos seus juramentos de fidelidade ao Senhor libertador. Se até aqui, num esforço de contextualização, referimos os nomes de Acab e Jezabel, importa agora falar do profeta, vamos agora referir o de Elias que lutou e venceu os profetas de Baal e que incarnou a consciência moral de Israel. Foi este profeta que, falando em nome de Deus, foi aclamado pelo povo quando, no tempo da seca, induziu a chuva. Foi ele que ganhou algumas “batalhas” contra a idolatria mas que não ganhou a “guerra” porque este povo, que o aclamou como herói, continuou, no entanto, a procurar outros deuses porventura mais convenientes mas, obviamente, falsos. Por isso Elias se desgastou e cansou. Não temia os deuses e as supostas forças mágicas destes, mas não hesitou em fugir, quando se confrontou com a primeira ameaça de Jezabel. Foi refugiar-se no outro lado da fronteira, no país de Judá, como se fosse um vulgar criminoso. Teria claudicado? A fuga parece ser um procedimento frequente nos “heróis” bíblicos. Jacob fugiu de Esaú. Moisés do Faraó. José e Maria fugiram de Herodes. Quando a vida está em risco a fuga afigura-se como uma solução mais eficaz do que a oração. Talvez porque ao santo repugne a ideia de pedir a Deus que resolva a situação com um milagre. Elias foge e caminha não apenas um mas quarenta dias. O seu caminho parece não conduzir a parte alguma. Quando se foge não se pensa muito para onde se vai mas de onde se quer sair. Porém os seus passos levam-no ao monte Horeb, o lugar onde a Lei foi dada por Deus a Moisés. Quarenta dias corresponde rigorosamente ao tempo que Moisés permaneceu na montanha na presença de Deus. Tais indicações simbólicas levam-nos a considerar que o caminho percorrido por Elias não é essencialmente geográfico mas espiritual. Ele irá da impureza e idolatria, presentes no lugar de onde partira, até à pureza e à fé simbolizadas por Horeb e pelo Deus do deserto. Há aqui um retorno à fonte originária. Um remontar à origem da fé. Um retornar à origem dos valores que o profeta não quer perder e que, acima de tudo, pretende defender. Provavelmente, como Profeta de Deus, Elias poderia ter enfrentado Jezabel com sucesso. No duelo dos deuses o profeta saiu vencedor. Poderia ter aproveitado este prestígio para se impor ao Rei como conselheiro e granjear uma situação de poder. Fazer recuar Jezabel na sua estratégia política. Talvez, neste contexto pudesse fazer passar algumas reformas religiosas destronando ídolos e encerrando todos os seus templos fazendo cumprir o mandamento de um só Deus e de um só culto. Porque razão não tirou partido desta circunstância? Porque se assim o fizesse o Deus de Abraão de Isaac e Jacob tornar-se-ia também num simples ídolo. Elias compreendeu que o povo o aclamou apenas em função do poder manifestado pelo seu Deus. Viram que a acção do deus representado por Elias revelara-se com maior eficácia ao trazer a chuva que interrompia a seca e, como tal, isso levava-os a agir como agiriam supostamente se lhes fizessem crer que outra divindade solucionasse eficazmente qualquer problema que tivessem. Elias sabia que a relação com Deus não se podia estabelecer num plano meramente utilitarista porque isso levaria, inevitavelmente, à redução do verdadeiro deus à condição de ídolo. O Deus de Elias não é um deus funcionário ao serviço das mesquinhices humanas. É o Deus da Lei, aquele que eleva o homem acima dos seus particulares interesses e que os faz ultrapassar tudo para ter em atenção a justiça, a paz e o amor entre os homens. Neste sentido poderemos compreender porque fugiu Elias e porque se descobriu em Horeb. Foi porque não renunciou ao belo, à grandeza e à força das suas convicções. Foi porque não se quis trair nem destruir-se. Mas compreender isso não foi fácil para Elias. Ele é como nós. O seu primeiro reflexo foi a fuga. Ele não sabia para onde iria. Quando se detém na primeira noite ele é um homem agastado, um homem que se dá conta de que não vale mais do que os outros. Elias não é por isso um herói. Como todos os homens da Bíblia, ele é realmente humano, fraco e desamparado. O seu pior inimigo encontra-se dentro de si próprio. Após ter triunfado sobre os ídolos Elias sente-se desencorajado e resignado. Ele é como nós. Frequentemente a conclusão de um processo, de uma etapa importante, de um projecto é seguida por um momento de vazio. Damo-nos conta de que tudo não passa de uma ilusão e de que não valemos nada e pensamos desistir, resignar, morrer, talvez. Elias não queria mais ser profeta. Parecia querer voltar a ser como os demais, ser um simples habitante da sua terra, não ter de enfrentar mais nenhum poderoso, não colocar mais a sua vida em risco. Teria querido guardar a sua fé apenas para ele. Mas havia uma outra inevitabilidade na sua vida: era a de ser profeta. Naquele momento teria preferido morrer, supondo a morte como libertação. Mas depois de um repouso atormentado por sonhos o anjo do Senhor indicou-lhe um caminho, um longo caminho. É aqui que vai compreender que o seu itinerário não chegara ao fim, que, pelo contrário, iria começar agora. Aquilo que não era senão uma fuga para o deserto do desespero torna-se num itinerário espiritual que lhe permite descobrir uma outra realidade que à partida não supusera. Elias, fatigado, desnorteado e destruído vai encontrar-se entre duas experiências extraordinárias: a do poder de Deus que se manifesta contra os sacerdotes de Baal e a da presença de Deus que se vai manifestar na montanha. O mais extraordinário está ainda para vir: Deus vai dirigir-se-lhe directamente. Elias compreenderá que o Senhor não é o Deus da cólera, da tempestade, dos tremores de terra, do fogo (cf 19,11-12). Que não é um vulgar deus de conveniência, um ídolo orientado para satisfazer as necessidades mesquinhas. Vai compreender que o Senhor não está no trovão tornitruante mas “numa voz mansa e delicada” (cf.19,12). É aí que nós o devemos procurar! Permanecer fiéis às nossas convicções, ao que nos anima, à ideia que fazemos do Homem e sobretudo à ideia que Deus faz do Homem. Longe dos esquemas e dos desencorajamentos, há que ir até à nascente da água da vida para reorientar a nossa existência. E que este caminho não seja uma fuga para nenhures mas um caminho de fé! Algumas questões para reflexão:
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