Estudo 3-  Limites para viver bem com Deus
As regras da Aliança (Religião, Ética e Fé) os Dez mandamentos
Êxodo 20,1-17
Emanuel Diniz (pastor metodista)

O Decálogo (ou as dez palavras, Dt 4:13; 10:4) conserva-se aqui e em Dt. 5,6 –21, sob duas fórmulas diferentes. Ele é o coração da Lei de Moisés.

Na sua origem, provavelmente, só continha fórmulas curtas e ritmadas (Cf. os vv. 12-16). Isso permitia memorizar, tendo, portanto uma função didáctica.

Posteriormente, esta formulação recebeu vários desenvolvimentos, o que explica as divergências dos dois textos.

Estrutura

Pode-se estruturar os dez mandamentos em conjuntos, relacionados pelos temas religiosos e morais.

Assim, por exemplo, na tradição reformada, manteve-se a formulação dos chamados padres gregos, que organiza os versículos da seguinte forma:

vv .2-3; 4-6;8-11; 12;13; 14; 15;16 e 17.

Ênfases

O texto começa pela evocação dos benefícios de Deus a favor do povo de Israel, dando  sentido às exigências que depois se seguem.

Quem é este Deus? Que Aliança faz Ele? O que é que Ele exige?

Deus deu-se a conhecer a Moisés, como sendo o Deus dos antepassados dos hebreus.

O nome “Javé”, evoca o nome hebraico “hâjah” (=Ser, existir, estar aí presente). Daí  traduzir-se num sentido activo de “Eu sou”, ou,  “Eu-estou-aí (para vós)”. Foi deste Deus que Moisés recebeu a tarefa de libertar os seus compatriotas da escravidão, conduzindo-os à terra dos patriarcas.

Isto significa passar para uma nova existência, uma nova oportunidade, um novo começo, na dinâmica de Deus.

Ora Moisés conseguiu, (mais ou menos pelo ano 1200 aC) levar a cabo a libertação do Egipto, vencendo toda a sorte de dificuldades debaixo da protecção de Deus.

Durante a longa travessia pelo deserto, o povo experimentou que Deus realmente estava com eles. Mesmo assim, durante as muitas dificuldades, nem sempre as suportou com fidelidade. Mas, apesar disso, Deus manteve sempre a sua promessa e eles foram experimentando que Deus “ É ” o seu fiel companheiro de jornada e “Está-sempre-aí”.

Portanto, Ele exige porque “Eu Sou, o Senhor, que sou o teu Deus, por te haver feito sair da terra do Egipto.”

Assim, em termos essenciais:

1. A salvação da escravatura no Egipto (ou de qualquer outra hoje em dia!) e a passagem pelo Mar Vermelho (ultrapassando o beco sem saída com a ajuda de Deus), representa a intervenção por excelência de Deus a favor do seu povo. (“Eu sou” no sentido dinâmico).

2. Portanto, ao lado de Javé não existe outro Deus; só Ele tem direito ao culto.

3. Então, Israel deve-lhe fidelidade e obediência, porque se comprometeu com a sua vontade. A Lei não representa, porém, um fardo pesado, mas é um amor activo e a expressão da fé. Se Israel for infiel, viola a Aliança, perdendo o direito ao grande Dom de Javé, que passa pela Terra da promessa.

     Pedindo que lhes sejam feitos deuses, o povo torna-se infiel à segunda cláusula do Decálogo (20,4) ao possuírem ídolos, isto é, objectos que sem ser Deus se tornem de certo modo um deus visível e palpável. Dito de outro modo, significa rejeitar o Deus invisível que se lhes revelou no monte Sinai, para pôr a sua confiança num falso deus, o qual se pode manipular e dispor à vontade, ainda que aparentemente se lhe obedeça!

Até que ponto alguma da programação televisiva, por exemplo, novelas em permanência com valores tantas vezes duvidosos, tais como ciúme, cobiça, roubo, não coloca especialmente crianças e juvenis diante de “verdades idolatradas”? Que dizer dos milhares de crimes e situações violentas de filmes e jogos de consolas? Que dizer dos jogos de sedução publicitária, como se a “marca” fosse igual à “felicidade”?

Que tempo e disponibilidade fica aí para as coisas do Evangelho? Para a oração? Para o Estudo Bíblico? Para o Culto a Deus e a mais nenhum outro?

Deus é “zeloso” ou ciumento é afirmar que o seu amor não tolera rivais. Não é ciumento em relação aos homens, mas sim em relação a outros deuses, pelos quais o queriam trocar. Não há aqui grandes motivos para reflexão pessoal, familiar e colectiva? 

Não pronunciarás o nome do Senhor, teu Deus, para uma coisa vã ou falsa. Israel recebeu a revelação do nome de Deus (cf. Gen 32,30), a fim de poder louvá-lo, invocá-lo e fazê-lo conhecido das nações. Mas não deve servir-se dele para práticas obscuras e perigosas (falsos juramentos, magia, maldições, etc.). 

Talvez a questão hoje seja diferente: será que Deus é pronunciado e os seus feitos anunciados até nos lares dos seguidores de Jesus, o Cristo? Por exemplo, dando graças a Deus nas refeições que a família toma junta!?...

Como em Gen. 2,1-3, o repouso do 7º dia é explicado aqui como um acabamento da Criação (cf. Gen 2:2).  O “Domingoé o Dia do Senhor, ou caiu, pela secularização reinante, no saco do “fim-de-semana”?  É dia de louvor, ou de dormir até mais tarde porque no dia anterior foi até às tantas? Que prioridades ?

Honra. Literalmente: Glorifica. Sendo a glória de uma pessoa o seu valor real, glorificar alguém é dar-lhe toda a sua importância. Glorificar os pais é efectivamente reconhecer neles os instrumentos de Deus, como fonte da vida. Cf. Miq. 1,6. Este mandamento obriga os filhos a darem assistência material aos pais idosos, cf. Miq. 7,10-11.

Pode haver conhecimento da “Honra aos pais” se as crianças são, por vezes, quem “manda” na casa?!

Não roubarás. A interpretação judaica desse mandamento estaria proibindo apoderar-se de pessoas para as reduzir à escravidão; desse modo, visaria todo e qualquer alienação da liberdade das outras pessoas. Mas, foi também legítimo ver aí uma proibição geral de roubar os bens de alguém.

O Decálogo é o centro da Lei mosaica. O pensamento sobre a libertação de Israel do Egipto e sobre a conquista da terra abriu os olhos ao povo, para o facto de que Javé sempre liberta, acima de tudo, do pecado; a Terra prometida é uma imagem forte que fala da salvação (no hebraico “Shalom” quer dizer “Paz” numa relação harmoniosa com Deus, o próximo e as criaturas circundantes, portanto uma dimensão de repouso e bem estar alargados).

A Aliança é portanto, um Dom que não é merecido, mas sim uma Graça divina. Ela é  um sinal de Fé para os seres humanos que se esforçam sinceramente por viverem no amor de Deus e do próximo.  Estas dimensões irão fecundar o pensamento profético e irão conduzir ao Novo Testamento em Jesus, o Messias (=o “Ungido”, escolhido de Deus). Jesus (cf. Marcos 10,17-21) mantêm o valor desta regra de Aliança, acrescentando-lhe o selo da perfeição pelo desapego das riquezas ou no fundo quaisquer outros lastros que impedem de o seguir e “…. para ter um tesouro no Céu!” v.21