| Estudo 2- Os nossos medos e a aliança de Deus com a humanidade |
| Não tenhas medo, a aventura continua… |
| Génesis 15, 1-21 |
| Pedro Brito (pastor estagiário presbiteriano) |
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”Olha para o céu e vê se podes contar as estrelas. Pois assim será o número dos teus descendentes.” O capítulo do Génesis imediatamente anterior ao do relato da Aliança de Deus com Abrão conta-nos uma guerra que acaba por apanhar inocentemente Lot, seu sobrinho. Abrão ao saber que ele está preso, arma um pequeno exército, derrota os que se julgavam vencedores e solta-o. Um dos reis agora vencedores, o de Sodoma agradece e propõe um negócio a Abrão: este ficava com os bens do espólio e aquele com as pessoas. Abrão recusa. Nada quer de Sodoma, “nem sequer uma correia de sandália”. O que interessa a Abrão são as pessoas. Depois disto, Deus faz a Aliança com Abrão, garantindo-lhe uma descendência tão numerosa como as estrelas do céu. “Abrão confiou no Senhor, e por isso Ele o aceitou como justo”. Sem dúvida que aquela opção de Abrão pelas pessoas em vez dos bens tem raiz na sua vocação de pai de muitas nações. A sua mudança de nome para Abraão significa isso mesmo (leia-se capítulo dezassete): o que ele livremente é e o que é chamado a ser por Deus unem-se na sua vida de patriarca das pessoas que seguem as três religiões monoteístas. Em Abrão há uma opção livre de fé que se funde com uma acção de Deus e por isso é considerado justo por Ele. Ser justo aos olhos de Deus é acreditar nele totalmente, sem reticências, livremente vivendo o Seu chamamento, com consequências e traduções no futuro e nas vidas das outras pessoas. Este ideal de justiça também é comum aos crentes monoteístas cristãos, islâmicos e judeus. Não é difícil de perceber a razão pela qual Abraão é patriarca do judaísmo. Jacob, cujo nome se transforma em Israel após uma luta com Deus (Gén. 32, 25-29), é neto de Abraão e filho de Isaac. Dele são os doze filhos dos quais vêm as doze tribos que ocupam a Palestina no tempo de Josué e dos Juízes. Para além de vir a ser inumerosa, à descendência de Abrão é garantida a terra que vai desde o rio do Egipto (Nilo) até ao grande rio Eufrates (na Mesopotâmia). Uma grande extensão de terra que vai do actual Egipto, passando por Israel, até ao Iraque. Daí que a herança reivindicada de Abraão, de Isaac e Jacob não seja só religiosa ou espiritual, mas também territorial. Um povo e uma terra, garantidos por Deus. Mas a mesma reivindicação é feita pelo islamismo. Sarai, que era estéril, teve a ideia de Abrão, seu marido, ter um filho com a sua escrava Agar. Nasceu Ismael. Mais tarde, após Sarai ter mudado de nome para Sara (Gén. 17, 15-27), teve um filho na sua velhice cujo nome é Isaac e tempos depois expulsou Ismael e a sua mãe. Estiveram à morte mas Deus protegeu-os, iria fazer nascer dele um grande povo. De Ismael nasceram doze reis e doze tribos, antepassados dos Árabes nómadas do deserto que durante vários séculos vaguearam até encontrarem o seu profeta: Maomé. Já que Ismael foi o primeiro filho de Abraão, embora ilegítimo, a sua descendência reivindica a sua herança. Quanto ao cristianismo, a genealogia de Mateus apresenta Jesus como filho de David e filho de Abraão. Jesus Cristo é o herdeiro da Aliança e o novo Rei. Contudo é uma Aliança, que embora não rompa totalmente com a Antiga, é nova. O reinado de Jesus não é ao modo de David. Nesta Aliança de Deus com Abraão existem duas partes. A parte de Deus e a parte de Abraão. A parte de Deus é a garantia de uma descendência, um povo e uma terra para este povo habitar. A parte de Abraão é a da sua fé, da sua confiança incondicional a ponto de se pôr na aventura da viagem, saindo da sua terra, levando tudo e todos consigo, confiando em Deus, mesmo sem saber como é que era possível a sua concretização, pois era uma terra estranha e não tinha filhos. No entanto confiou, teve fé e por isso foi considerado justo. Se lermos com atenção a aventura de Abraão, observamos que tanto da parte de Deus, como da parte de Abraão as atenções estão voltadas para as pessoas, para o povo, para o ser humano e não para a terra prometida. O exemplo claro é a acção de Abrão para soltar o seu sobrinho Lot. A Aliança de Deus com Abraão, no fundo, é a Aliança de Deus com a Humanidade. Deus garante a sua descendência, a Humanidade responde com a sua fé. Contudo, ao longo dos séculos, no seio das três religiões monoteístas muitas vezes a atenção do ser humano esteve e ainda está, não na garantia de descendência às pessoas, mas sim no território específico onde elas iriam habitar e que Deus prometeu a Abraão e aos seus. Mais uma vez, é necessário conhecer a sua história para ver mais fundo. Abrão e Lot separam-se porque já era muita gente e bens para um mesmo lugar. Não houve luta, mas entendimento. Importava salvaguardar a relação em detrimento do território. A Nova Aliança de Deus com a Humanidade feita em Jesus Cristo ilumina definitivamente a que foi feita com Abraão. Duas partes existem à mesma, mas actualizam-se os termos. Do lado de Deus a garantia de descendência inumerosa a Abraão transforma-se em dádiva de Vida Eterna; do lado da Humanidade, a mesma resposta de fé baseia-se já não só neste mundo, nesta terra ou em determinado território, mas sobretudo num encontro relacional com Deus, sem tempo nem espaço. O Reino de Jesus Cristo não é deste mundo (Jo.18, 36) e no entanto já chegou até nós (Mt. 4, 17; 10,7; Mc. 1,15). Não se fixa em determinado território espacial, mesmo que seja tão grande como o que foi garantido a Abraão ou tão pequeno como a Palestina. O seu território é a Criação, o seu espaço é onde o Espírito Santo está. Não se prende num tempo, mas começando no aqui e no agora, nunca tem fim. Na Aliança de Deus, seja com Abraão seja em Jesus Cristo, vemos uma central atenção para com o ser humano, a pessoa na sua vida. Quando Deus diz a Abrão para não ter medo, garante-lhe a sua continuação através da sua descendência. Em Jesus Cristo essa aventura continua, mas já não se cinge a um povo ou território num tempo, mas abrange toda a Humanidade, toda a Criação, Eternamente. Propostas para discussão em pequenos grupos: 1) “Buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mt. 6, 33) a) Ler Mt. 6, 25-34. b) Concretamente o que significa ser Justo hoje. 2) Conflito na Palestina (A utilizar também num debate de especialistas): a) Como entendê-lo? b) Como tentar resolvê-lo? Cântico (mais para crianças): O Pai Abraão tem muitos filhos… Textos suplementares: Génesis 14, 8-24; Génesis 21, 8-21 |