Estudo 1- Vencer o medo

“Jesus diz-nos – a cada um(a) de nós e a nós, igreja -: não te preocupes tanto contigo próprio. Não sabes que eu cuido de ti? Busca antes o Reino de Deus e a sua Justiça!”

Lucas 12, 22-34. (Ler também: Salmo 23)
Eva Michel (pastora presbiteriana)

“Não tenham medo, pequeno rebanho! O vosso Pai achou por bem dar-vos o seu Reino.” (Lc. 12, 32) (Citado na Tradução em Português Corrente (A Boa Nova). Recomenda-se que o grupo consulte várias traduções (ex.: Almeida, Boa Nova, Nova Bíblia dos Capuchinhos…)

Faz bem, aquece o coração, ler estas palavras! É como se Lucas as tivesse escrito a pensar em nós, discípulos de Cristo numa sociedade, num mundo que, hoje como naquele tempo, se rege por outros ideais e adora outros deuses. Até parece que teve em mente a nossa realidade de pequena igreja protestante minoritária (em Portugal, todas as minorias religiosas juntas (incluindo judeus, budistas, etc.) não vão para além de 3% da população, cf. H. Vilaça, Da Torre de Babel às Terras Prometidas. Pluralismo Religioso em Portugal, 2006) em Portugal, no início do século XXI!

Tocam-nos estas palavras, pois. Para já, porque encaram um facto incontornável: as pessoas têm medo. E preocupações. Até Jesus tremeu de pavor, em Getsemane, para não falar dos seus discípulos, em mais do que um momento. (Cf. Mc. 14,33; Lc. 8,22). O medo, dizem muitos, faz parte da natureza humana e, sabemo-lo certamente por experiência própria, não se deixa controlar nem se dissipa com meros apelos à coragem.

Coisa óbvia. Como também é óbvio que, muitas vezes, o medo, o temor, as preocupações acabam por dominar e paralisar uma pessoa ou até toda uma comunidade: já não consegue olhar para além de si própria, já não consegue agir de forma construtiva, já não consegue viver com alegria.

Até aqui, nada de novo. Só que, insiste Lucas, Jesus olha estas pessoas preocupadas, paralisadas, aprisionadas, fala com elas, toca-as e… a sua vida transforma-se! Nada fica como era. Mais tarde testemunharão: o Mestre tirou-me o fardo! Ele libertou-me do medo do passado e do medo do futuro, do medo dos castigos terrestres e dos castigos de Deus! Ele deu-me uma vida nova!

Os evangelistas como Lucas resumirão: Em Cristo, Deus deu-nos o seu Reino.

Vencer o medo – não com apelos à coragem, mas sim, apontando para uma realidade superior: Não tenham medo – Eu estou com vocês. Este é o fio condutor que atravessa toda a Bíblia, toda esta colecção de testemunhos de fé ao longo dos séculos: não temais, Abraão e Sara! Não tenhas medo, Agar, nem tu, pequeno David, face à ameaça do terrível gigante! Não desanimes, povo de Israel! Eu te chamei, eu te libertei (da escravidão do Egipto, do exilo na Babilónia…), eu estou contigo, eu carrego-te nos meus braços, eu preciso de ti.

Eis a base, fundamental, para vencermos o medo. Posto isto, Lucas avança para uma importante distinção: há medos e preocupações que valem a pena – e outras que nem tanto. O convite é claro: vencer as preocupações desnecessárias, essas que nos impedem de viver, e concentrar-nos naquilo que importa realmente. Resta a questão: como distinguir entre umas e outras? Concordamos, por exemplo, com o exemplo dos lírios e dos pássaros, ou seja, com a classificação da preocupação com comida e roupa como preocupações muito secundárias, se não desnecessárias?

Vencer o medo: em primeiro lugar, a promessa: o nosso Pai cuida de nós, Deus liberta-nos e chama-nos para o seu Reino. Distinguir, depois, entre medos e medos, preocupações e preocupações. Desta distinção decorre uma outra: se é verdade que dificilmente podemos controlar se sentimos ou não medo, se andamos ou não preocupados (nessa matéria, os apelos pouco ajudam, já o constatámos), as coisas mudam quando se trata de como lidar com medos e preocupações. Pois, de facto, depende de mim e da minha decisão consciente a forma como reajo, quanto espaço vou ceder ao medo na minha vida, que contrapoderes procuro mobilizar. Por exemplo, se temos medo de assaltos nas ruas da cidade, podemos optar por nunca mais sair de casa, podemos decidir sempre fazer-nos acompanhar, poderíamos resolver andar armados. Podemos evitar regiões particularmente perigosas ou poderíamos decidir assumir o medo e andar nas ruas da cidade na mesma. Algumas destas respostas são ingénuas, outras claramente exageradas e desproporcionadas, mas não há dúvida: está no meu, está no nosso poder encontrar uma resposta apropriada. Uma resposta que considera o perigo real e, sem se deixar dominar pelo medo, na confiança em Deus procura uma solução inteligente e adequada.

De novo: somos capazes de escolher respostas adequadas e vencer o medo porque fizemos a experiência da confiança: “Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam.” (Salmo 23, 5)

Assim, confiante, eu gostava de viver. Assim, a avançar para frente com fé e coragem, eu gostava de ver a nossa igreja, mesmo quando atravessar o mais fundo “vale da sombra da morte”. Habituámo-nos a associar esta imagem do Salmo a situações de doença grave. Mas olhando para o nosso mundo actual, não fechando os olhos à violência, à guerra, à pobreza, à fome de tantos e tantos, à distribuição tão injusta dos bens, à destruição ecológica do planeta, à sorte dos refugiados, ao gritante egoísmo de tanta gente e ao cinismo de muitos dos que carregam com grande parte da responsabilidade, sinto muitas vezes que esse belo planeta, dom de Deus, se transformou, para muita gente, num profundo e terrível abismo onde reina a sombra da morte. Face a esta realidade, o que poderá significar termos fé e, portanto, “não temermos mal algum”?

Encontrei um exemplo (um entre muitos…), que poderá inspirar a nossa reflexão: Quando a ditadura nazi espalhava a morte na Europa, durante a II Guerra Mundial, uma vila no sul de França, Le Chambon-sur-Lignon, tornou-se num local de abrigo para milhares de refugiados judeus. Pois, ignorando as ameaças das forças ocupantes e o risco para a sua própria vida, os cidadãos esconderam os refugiados em suas casas, em instituições públicas e, se necessário, até na floresta. Durante meses, durante anos, em alguns casos. Trataram de obter documentação falsificada, ajudaram a atravessar a fronteira para a segurança da Suiça. Todos cooperaram de algum modo nesta operação de salvação, mas o núcleo, o motor da resistência, esse encontrou-se na Igreja Reformada da vila, liderada pelo pastor André Trocmé e a sua mulher Magda. “Se não fôssemos nós a salvá-los, quem o faria? Eles são filhos de Deus como nós” – eis a justificação dos que, por não temerem a morte, foram capazes de se preocupar com a vida dos outros, transformando um “pequeno rebanho” de discípulos num precioso instrumento do Reino de Deus. (Veja-se: http://pt.wikipedia.org/wiki/Le-Chambon-sur-Lignon, em português, e http://www.auschwitz.dk/Trocme.htm, em inglês.

Questões para reflexão e discussão:

  1. “Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo”. – Esta experiência do Salmista é também nossa? Convida-se a uma breve partilha de experiências.

  2. Os principais medos e preocupações do nosso tempo: enumerá-los e apontá-los num placard / cartolina/ quadro.

  3. Em relação a esta lista, distinguir medos com razão de ser de medos e preocupações desnecessários. Sugestão: primeiro cada elemento do grupo faz esta escolha individualmente; a seguir, partilha no plenário.
  4. Comparar as conclusões do grupo com os exemplos apresentados por Lucas. Breve reflexão.
  5. Ler Salmo 23,5. Que testemunho de vida queremos e podemos dar nós (o grupo reunido para o estudo bíblico, a igreja local, cada um de nós) no meio do” vale fundo da sombra da morte”? Procurar e registar exemplos concretos.
  6. Encerrar com oração e leitura do Salmo 23.