Culto dominical
27/11/2005

Pastor estagiário Pedro Brito

Meditação sobre Marcos 13, 32-37

Mais uma vez, desde de algumas semanas o evangelho de hoje nos fala do dia do Senhor. Jesus, nosso Salvador diz-nos que o dia da Salvação definitiva virá. Mas não se sabe quando. Nem o dia nem a hora. Nem o próprio Filho o sabe. Só o Pai. Por isso, estejam atentos, olhai e vigiai.

Entramos hoje no primeiro domingo do advento. O tempo em que a chegada do Messias, o prometido libertador chegará brevemente.

Como pudemos ler no livro de Isaías, já o profeta no seu tempo ansiava que o Senhor, o Pai Valente e ao mesmo tempo cheio de ternura rasgasse os céus e descesse, porque os caminhos do povo, dos seus filhos se tinha extraviado, o coração do povo se tinha endurecido. “Só tu, Senhor, és o nosso pai, e o teu nome, desde sempre, é «nosso Libertador»”.

O profeta ansiava pela descida do seu Libertador ao mundo, ao povo, aos homens, ao mundo. Ele desejava essa vinda, pois só assim, talvez as coisas mudassem, talvez os corações endurecidos voltassem a ficar moles e o povo, no qual o profeta se inseria, talvez voltasse a respeitar Deus.

Entramos no advento, num tempo em que esse Libertador está para chegar. E os nossos corações, encontram-se moles ou duros?

O Libertador está para chegar, certamente pensavam muitos que viviam aquelas semanas que antecederam o nascimento de Jesus. Muitos desses até nem se deram conta que ele nasceu e continuaram a viver a sua esperança da chegada de um Libertador do povo de Deus. Muitos, até nunca conheceram Jesus e continuaram à espera do Libertador. Muitos conheceram Jesus e continuaram à espera do Libertador. Muitos de nós conhecemos Jesus e continuamos à espera do Libertador.

Sim, é verdade. O Evangelho de Marcos que lemos hoje espelha isso mesmo. O Senhor há-de voltar, o Filho do Homem há-de voltar, vivemos nessa esperança que ele há-de voltar para Libertar definitivamente este povo, este mundo, este universo. É verdade! Mas de que maneira nós o esperamos?

Não haverá muitos de nós que os esperamos como se ele nunca tivesse vindo? Como se nunca o tivéssemos conhecido? Esperamos por Ele, sem conhecer o seu rosto, sem reconhecer a sua voz, sem sentir o seu cheiro, sem identificar as suas mãos como sendo as mãos que foram pregadas na cruz e o seu peito ferido?

Não haverá muitos de nós que esperamos por ele como se ele tivesse morrido e não tivesse ressuscitado. Ele está vivo! Ele ressuscitou! Façam como Tomé: Olhem para ele e reconheçam o seu rosto, escutem-no e reconheçam a sua voz, sintam o seu cheiro, toquem nas suas mãos feridas e o peito cravado pela lança e digam: “Meu Senhor e meu Deus”.

Reconheçam o seu rosto no rosto das crianças que morrem à fome esquecidas pelos ecrãs de televisões; Ouçam a sua voz na voz dos idosos atirados para as camas dos lares; Sintam o seu cheiro no cheiro dos sem-abrigo que percorrem as nossas grandes e majestosas cidades; sintam as suas mãos feridas nas mãos gastas dos homens e mulheres que ainda trabalham de sol a sol para poder comer para não morrer; toquem na ferida do seu peito, na ferida que vive no peito de quem sofre e não consegue deixar de sofrer.

O nosso Libertador chega e os nossos corações estão duros ou moles? Ele já vive em nós e nos mantém acordados para o reconhecemos, ou está morto em nós e dormimos um sono, pois nunca o conhecemos e nem sabemos quem ele é, ou se o conhecemos já sem o conseguiremos reconhecer quando ele vier?

Reparemos como Paulo escreve à comunidade cristã em Corinto.

Ele diz: “Uma vez que o (martu,rion ) testemunho está arraigada em vocês, ….Deus chamou-os a viver em comunhão com seu Filho, Jesus Cristo, nosso Senhor. E Deus cumpre a sua palavra.”

Paulo afirma o martírio, o testemunho que a comunidade de Corinto vive. E ele só é possível porque se vive em comunhão com Ele. Porque já se vive em comunhão com Ele, já nenhum dom falta enquanto se espera pela vinda/revelação avpoka,luyin de nosso Senhor Jesus Cristo. Ele há-de fazer com que continuem firmes até ao fim, até a dia do nosso Senhor Jesus Cristo.

Esperar pela vinda do Senhor, é já viver a sua presença. Esta é a grande diferença entre o judeu e o cristão. Entre o profeta Isaías que pedia a descida do Libertador sem o ter visto e o Evangelista Marcos e o apóstolo Paulo que esperavam a volta do seu libertador, mas com a certeza na fé que ele já tinha vindo, mais, não só já veio, como está vivo!

Ele está vivo quando deixamos que os nossos corações fiquem moles e deixamos que a sua Palavra entre em nós, que o seu amor nos habite e assim possamos amar os outros e ver, ouvir, sentir nos outros a Sua presença, a sua vida. Ele está vivo, quando os dons que Deus nos concedeu são postos ao serviço do amor, do próximo, são partilhados e não enterrados. Ele está vivo quando vivemos e vemos a vida em tudo e em todos, mesmo quando isso nos seja muito difícil: quando nos achamos os bons e não conseguimos ver o bem ainda que enterrado bem fundo no outro existe, porque Deus o criou para a vida e não para a morte.

Sim, esperar pela vinda do Libertador é viver já a sua presença. É viver a vida que nos mantém despertos e de coração mole para sentirmos e vermos nos outros, no mundo, o Jesus Cristo Ressuscitado. Esperar que o nosso Libertador chegue é afirmar constantemente no dia-a-dia a Vida de coração mole e desperto ajudando pela vida que há em nós os que vivem a morte dos corações duros e adormecidos.

Que saibamos, nós que conhecemos Jesus Cristo, reconhecer a sua voz, o seu rosto, o seu cheiro, as suas mãos e o seu coração nas nossas vidas e nas vidas que nos rodeiam. Que saibamos nós manter o coração mole e desperto à espera do Libertador, não como se o não conhecemos, mas porque o conhecemos e ele vive em nós.

Esperemos pelo Libertador Vivo e levemos esta Esperança Viva ao nosso próximo, ao mundo, ao Universo inteiro!