| Culto dominical |
| 13/11/2005 |
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Pastor estagiário Pedro Brito |
Meditação sobre Mateus 25, 14-30O texto da Boa-Nova que hoje lemos é ao mesmo tempo fácil de entender e difícil de assimilar. São palavras duras de Jesus que abordam um assunto que normalmente não se gosta de falar no cristianismo: o regresso do Senhor; a segunda e definitiva vinda dele; o dia do Senhor; o dia do Juízo; o fim dos tempos. A parábola dita por Jesus e transmitida assim à Igreja pelo Evangelista Mateus, lança claros alertas à comunidade cristã. Se formos à carta aos cristãos de Tessalónica que lemos, podemos perceber que havia certamente naquela altura cristãos que, por esperarem a vinda eminente do Senhor, vivam a sua fé, a sua relação com ele num deixar andar passivo, de quem vê passar os dias, sem viver, sem procurar executar no dia-a-dia, no hoje o amor, a justiça, a paz, a alegria da presença do Espírito do Senhor Ressuscitado no coração da comunidade cristã, de cada crente, da Igreja. Paulo alerta para esse estado de adormecimento, de olhar nostálgico de quem passa a vida a se lembrar do passado com o desejo de: “Há se ele voltasse…”, do deixar que a escuridão da noite domine as vidas do crentes. Não. Esperar pelo Senhor não é um deixar andar, não é dormir em pé, não é deixar que a escuridão vença. Não. Esperar pelo Senhor é termos a sua luz, a sua presença de força de vida que faz vencer a escuridão, tenha ela as formas que tiver. Para que quando ele chegar estejamos bem acordados para o podermos ver e vivermos definitivamente com Ele. Pois é nesse sentido que nos fala hoje o Evangelho. Depois que Jesus partiu, ele não nos deixou entregues à nossa sorte, a nós próprios. Não. Ele deixou-nos a força vivificadora do Seu Espírito. E que melhor expressão dessa força nós temos do que os talentos que existem em cada um de nós? Deus não só nos deu talentos como nos deu também a força de os partilhar. E deu-nos também o livre arbítrio. O poder de escolha de fazermos com os nossos talentos o que quisermos, de os partilharmos, de abrirmos mão deles para eles se multiplicarem, ou de os fecharmos nas nossas mãos. Falo em talentos, porque no texto original vem que o homem quando partiu deixou 5, 2 e 1 talentos a cada um dos seus empregados. Um talento ao tempo de Jesus, era usado como peso ou como moeda. Era sempre de ouro ou de prata e valia cerca de 3000 salários diários e pesava 30kg. Os talentos que Deus nos dá são valiosíssimos. Eles pesam! Os cristãos para quem escreve o evangelista Mateus passavam pelo mesmo problema que os de Tessalónica a quem Paulo Escreve. “Para quê pensar na vida, no que devo fazer ou deixar de fazer, se o Senhor chegará em breve? Basta-me a minha fé, orar, louvar a Deus.” O problema começou-se a agravar quando os anos passaram e o Senhor não chegava. Se o próprio Senhor tinha dito que tudo ia acontecer antes de desaparecer aquela geração, embora também tenha dito que ninguém sabe a hora nem o dia, só o Pai (Mt. 24, 34-35), como é que as pessoas iam morrendo e Ele não tinha chegado ainda? “Quando tempo mais tenho de esperar que o Senhor me traga a vida eterna? Eu quero-a já, para mim, para agora.” Sim, na realidade escura que nos envolve, é difícil persistir na luz. É difícil lutar contra a injustiça, contra a pobreza extrema, contra a corrupção, a favor da solidariedade, da paz, do Amor. Talvez, já suficientemente difícil é termos a nossa fé, orarmos e louvarmos a Deus, em silêncio, sem que os outros saibam. Para quê ir contra a maré? Se não os consegues vencer, junta-te a eles. Ou então, numa atitude parecida: para quê lutar por este mundo, se este mundo está perdido? Não vale a pena. Eu vivo a minha vida e os outros vivam a deles. Não tenho nada a ver com isso. “Tu no teu cantinho e eu no meu.” Eu tenho a minha fé e isso basta-me. Pois é, estamos fartos de esperar pelo Senhor. Estamos fartos de ter esperança que as injustiças, as guerras, a pobreza extrema acabem. Elas nunca hão-de acabar. Para quê viver na Utopia que um dia o amor há-de vencer? O Senhor tarda, O dia no Senhor demora a chegar. Estamos cansados de esperar. O Senhor nunca há-de chegar… Caras irmãs e caros irmãos. O Senhor já veio! É isso que ele nos diz hoje. Ele está presente. Ele está presente nos talentos que ele nos deu, que são expressão da força do Espírito que dá a Vida. Ora, esses talentos que todos temos, cada um conforme a sua capacidade, devem ser partilhados. Partilhar os talentos implica darmo-nos, abrirmo-nos ao outro, ao próximo, ao mundo, à vida, e então, sim, estaremos a esperar pelo Senhor com Ele, com a força vivificadora do seu Espírito. Se fecharmos os talentos dentro de nós, se não abrirmos mão deles, se não os partilharmos, então deixaremos de viver e mataremos o Espírito. Andaremos pelo mundo adormecidos à espera que um dia a morte nos vença. E quando o Senhor vier definitivamente, julgar os vivos e os mortos, nos encontrará ou, a dormir, sem possibilidade de o ver, ou mortos. Se, pelo contrário, partilharmos os nossos talentos de modo a que eles tomem vida em nós e vivifiquem a quem nós os partilhamos, então, mesmos mortos, viveremos quando o dia do Senhor chegar. Irmãos e irmãs. Oremos constantemente e peçamos a Deus nosso Pai que ele nos mostre o talento que cada um tem. Esse(s) talento(s) que encontramos, é sinal que O Espírito de Deus criador da vida habita em nós. E, não basta encontrar esse talento, é necessário partilhá-lo, abrir mão dele, e não o manter bem fechado na nossa mão. Abrir mão dele, partilhá-lo para que, quem tem esse talento, viva verdadeiramente, mas também leve a vida aos outros, para que eles também possam descobrir os talentos que têm e assim possam começar ou recomeçar a viver. Jesus é vida, é luz. “Eu sou a luz do mundo”; “Eu vim para que tenham vida”. Não deixemos que o mundo fique sem luz e sem vida. Ousemos, nós os que temos fé e esperança que um dia o Senhor há-de voltar, ousemos levar essa luz ao mundo e essa vida, partilhando os nossos talentos, para que eles dupliquem sempre. Para que, quando o Senhor voltar, não encontre ninguém adormecido ou morto, envolvido pela escuridão absoluta, mas sim, que encontre todos despertos, bem vivos envoltos numa luz que nunca se apaga. Que a salvação que um nos tocou um dia, não fique encerrada em nós, que vimos aqui hoje a este culto. O mundo, a vida, precisa dos nossos talentos. Ousemos partilhá-los com os outros quando sairmos por aquelas portas. |