Culto dominical
23/10/2005

Pastor estagiário Pedro Brito

Meditação sobre Marcos 12, 28-34: "Os mandamentos mais importantes"

As palavras de Jesus hoje trazem-nos a essência, o centro do que é ser Cristão: Amar a Deus e amar o próximo. Nestes dois mandamentos se resumem o que deve ser um cristão e o que deve ser a comunidade cristã. São estas as únicas leis que um cristão deve seguir: amar a Deus e amar ao próximo. E estas duas vêem juntas, são um único mandamento, o mandamento do amor que vem de Deus e nos faz ama-lo em resposta, mas também o próximo, como diz a carta de João: «Nós amamos, porque Deus nos amou primeiro. Se alguém diz que ama a Deus, mas tem ódio ao seu irmão, é um mentiroso. De facto, aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, como pode amar a Deus, a quem não vê? O mandamento que Jesus nos deixou é este: aquele que ama a Deus deve também amar o seu irmão.» (1 Jo. 4, 19-21) Quem assim o conseguir fazer na sua vida, será um verdadeiro cristão, um fiel verdadeiro, se a comunidade cristã fizer isso, será verdadeiramente Igreja.

Nada disto é novo para os irmãos e irmãs que me ouvem. Todos sabem que o grande e único mandamento que Jesus trouxe é o do Amor. A resposta que Jesus dá ao Fariseu, não terá sido novidade também para ele. Jesus não terá sido o único do seu tempo a dizer que toda a Lei (Torah) e os profetas mais não fazem do que exemplificar, desenvolver o fundamental, o central que é amar a Deus e ao próximo. Só em relação ao próximo, na Lei (Torah), existem mais de 50 mandamentos. (Exd. Lev, e Deut.). O próprio apóstolo Paulo, um judeu fariseu de formação o diz na sua carta aos romanos: «Não devam nada a ninguém, a não ser o amor de uns para com os outros. Quem ama o próximo cumpre a lei. Os mandamentos dizem: não cometerás adultério, não matarás, não roubarás, não cobiçarás. Ora todos estes e qualquer outro mandamento resumem-se num só: Ama o teu próximo como a ti mesmo. O que ama o seu próximo não lhe faz nenhum mal. Pois o amor é o cumprimento total da lei.» (Rom. 13, 8-10). E, quanto ao mandamento de amar a Deus, ele aparece no texto talvez mais lido e sabido de cor pelos judeus (Deut. 6, 4-9): «Escuta Israel, o Senhor e só ele é o nosso Deus. Ama o Senhor, teu Deus, com todo o coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. Que os mandamentos que hoje te dou estejam sempre na tua memória. Ensina-os continuamente aos teus filhos e repete-os, tanto ao deitar como ao levantar, quer estejas em casa, quer vás de viagem. Deves trazê-los no teu braço como um distintivo, na tua testa como emblema. Escreve-os nas ombreiras das portas da tua casa e em todos os teus portões.»

Cristãos e Judeus, temos isto em comum: Sabemos que temos o dever de cumprir o grande mandamento de amar a Deus e ao próximo.

Mas, o centro do texto de hoje, o que Jesus nos vem dizer, não está no saber esse mandamento, está no compreende-lo verdadeiramente, e sobretudo: Pô-lo em prática.

Em relação à compreensão, temos de ter em atenção que Jesus usa o verbo amar num tempo que pode ser traduzido no indicativo futuro: “amarás” ou no imperativo presente: “Ama!”. Amar a Deus e ao próximo é simultaneamente uma tarefa para o futuro, mas também, não podemos esquecer um imperativo presente. Há que começar já, agora, neste momento a amar, e não esperar para começarmos amanhã. O amor de amanhã não espera, ele começa já! É imperativo agora amar. Contudo, os medos, as prisões, os sofrimentos fazem-nos muitas vezes adiar para o futuro uma intenção de amar.

O mandamento diz também para amar a Deus com todo o coração, toda a alma e todo o entendimento. Três palavras que no original são todas femininas (alusão ao amor de mãe). Coração, no original grego: kardia. Esta palavra não significa somente coração, sentimento, não, ela significa o centro do nosso ser, a nossa vontade, o nosso desejo, a nossa intenção. Amar a Deus com todo o coração, não quer dizer amar com o sentimento, mas com o centro do nosso ser, com toda a nossa vontade, com todo o nosso desejo, com toda a nossa intenção; Alma, no original grego: Psyché, não quer dizer apenas alma, quer dizer vida, o que nos faz viver. Amar a Deus com toda a alma é amar como respiramos, como se para nos mantermos vivos, dependesse disso o amar a Deus. Amar a Deus é o que nos faz viver. Entendimento, no original grego: dianoia, não quer dizer apenas entendimento, mas também propósito, atitude. Amar a Deus com todo o entendimento, significa ama-lo em todo o momento, em qualquer coisa que façamos, onde quer que estejamos, significa que todas as nossas atitudes são sempre de amor, quer estejamos ao domingo dentro da Igreja, ou ao sábado à noite com os nossos amigos e colegas.

Quanto a pôr em prática esta compreensão do mandamento, quem o pode cumprir verdadeiramente? Gandhi, dizia: “Mostrem-me um Cristão e eu serei um.” Dizia ele isto, porque não conseguia ver em nenhum que se dizia cristão a concretização na vida do seguimento do mandamento do amor. O livro do êxodo alerta para isso. Quantos se dizem cristãos e oprimem os estrangeiros, (veja-se os que criticam a presença de estrangeiros neste país, como se nunca ninguém tivesse saído de Portugal para tentar uma vida melhor no estrangeiro, veja-se o que estão a fazer com aqueles que tentam entrar em território espanhol). Quantas vezes nós, nos portamos como usurários, e precisamente nestes tempos de crise não temos remorsos em emprestar dinheiro com juros altíssimos sem pensarmos que essas pessoas podem vir a ficar sem dinheiro até somente para se protegerem do frio nas ruas húmidas das grandes capitais. Não, o amor misericordioso de Deus com que o texto do livro do Êxodo conclui, muitas vezes não é o amor que nós dizemos que seguimos quando dizemos que seguimos a Cristo. Sim, quem ama a Deus e ao próximo com todo o coração, com toda a alma e todo o entendimento? Quem amou, quem amará?

Jesus Ama!! Jesus amou, Jesus amará, sempre!! É esta a grande novidade que o Cristão trás dentro de si. Cristo, pela sua vida, pela sua paixão, pela sua morte, demonstrou que é possível viver até às últimas consequências o amor a Deus e ao próximo. Ele amou a Deus e ao próximo com todo o seu coração, todo o seu ser, como toda a sua alma, toda a sua vida, com todo o seu entendimento, em todos os momentos, mesmo na morte. E este seu amor que brotava do Pai e que vivia nele por acção do Espírito, ele nunca desistiu dele. Jesus também teve medo, ao ponto de suar sangue no Monte das Oliveiras; ele também esteve preso; ele sofreu o abandono do Pai, mas o amor, ele nunca o abandonou, pois sabia com o todo o seu coração, com todo a sua alma e todo o seu entendimento que vivendo esse amor que vem de Deus, jamais iria morrer, pelo contrário, iria vencer a morte e viver para todo o sempre. E mais:

Jesus com essa obediência de vida em amor, trouxe assim, por meio da fé nele a possibilidade de também nós participarmos dessa Vida Eterna, do Reino de Deus. Sim, o cristão pode de facto amar a Deus e ao próximo com todo o coração, com toda a alma e com todo o entendimento. Disso é testemunha Paulo, nesta carta que escreve aos Tessalonicenses. Eles são o modelo para todos os crentes da Macedónia e Acaia. A sua fé espalhou-se por toda a parte. E ao longo da história da Igreja, embora pareça raro, encontram-se inúmeros exemplos de homens e mulheres, de comunidades cristãs, que viveram o mandamento do amor com todo o coração, toda a alma e todo o entendimento. (Madre Teresa de Calcutá, Martin Luther King, os apóstolos, irmão Roger de Taizé, Aqueles que os irmãos e irmãs conheceram e conhecem: pilares da igreja).

Eu tenho sentido, irmãos e irmãs, nesta mesma igreja em que vos falo hoje, o mesmo sentimento que Paulo pela comunidade de Tessalónica. (acolhimento de comunidade cristã-igreja) Tenho sentido que nas vossas vidas têm vivido o mandamento do amor com todo o vosso coração, toda a vossa alma e todo o vosso entendimento. Sim, é possível viver esse amor. Quando deixamos entrar Cristo, quando deixamos que ele viva em nós, então podemos viver o mesmo amor que ele viveu e assim participar da Vida plena, que um dia há-de vir.

Amar a Deus e amar ao próximo. Um dia, um certo doutor da Lei perguntou: E quem é o meu próximo? E então Jesus contou a parábola do Bom Samaritano (Lc. 10, 30-37)

Que possamos nós lutarmos enquanto seres humanos plenos de fé e também enquanto igreja viva de Cristo, apesar dos sofrimentos, das prisões, dos medos, por vivermos o mandamento do amor, e que pela nossa vida, em obras e também em palavras levemos ao mundo inteiro esse mandamento do amor, para que todo o mundo participe um dia da Vida Eterna!